O FRESCOR DA TRADIÇÃO

“Não devemos perder a esperança. Onde muitos enxergam dificuldades, vejo oportunidades. Há um imenso trabalho de resgate cultural a ser feito”, diz o historiador carioca.

Por Marco Aurélio Bissoli

Um dos principais pensadores conservadores norte-americanos, Kussell Kirk, tem ganhado cada vez mais espaço no mercado editorial brasileiro com vendagens significativas. O interesse pelo tema mostra a onda conservadora que caminha a passos largo pelo país.

Responsável pela revisão técnica das edições nacionais dos livros de Russel Kirk publicados no Brasil, o historiador e pesquisador carioca Alex Catharino falou com exclusividade ao blog A Torre sobre esse fenômeno diante de uma nação acostumada a golpes de Estado, revoluções e crimes de corrupção ao longo de sua história.

Depois de lançar “A Era de T. S. Eliot: A Imaginação Moral do Século XX”, “A Política da Prudência”, “A Mentalidade Conservadora: De Edmund Burke a T. S. Eliot” e “Edmund Burke: Redescobrindo um Gênio”, o historiador colocou no mercado no ano passado um estudo primoroso chamado “Russel Kirk – O Peregrino na Terra Desolada”. Todos os títulos lançados pela editora “É Realizações”.

Para falar sobre estes e outros assuntos, reproduzimos a entrevista com autor, que é vice-presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), editor-assistente da COMMUNIO, revista internacional de teologia e cultura, e pesquisador do Russel Kirk Center. Confiram a seguir:

O que é ser um conservador?

Não existe um modelo ideal do que é ser conservador. No livro A Política da Prudência, ao caracterizar o conservadorismo como a negação das ideologias, Russell Kirk ressaltou em diferentes passagens que esta doutrina pode ser expressa de modos distintos. Na perspectiva kirkiana o conservador deve assumir o papel de guardião da ordem, da liberdade e da justiça, lutando pela restauração e pela preservação das normas que informam as verdades acerca da natureza humana e da organização social.

O historiador e filósofo católico mineiro João Camilo de Oliveira, no livro Os Construtores do Império: Ideais e Lutas do Partido Conservador Brasileiro de 1968, primeiro trabalho a citar Russell Kirk no ambiente lusófono, contrapõe o espírito conservador “em seu sentido autêntico”, tal como apresentado pelo pensamento kirkiano e “representado pelo Partido Conservador, no Império do Brasil, e, tradicionalmente, pelo Partido Conservador britânico”, às posturas imobilista, reacionária e progressista. Os imobilistas adotam uma atitude estática, tentando impedir qualquer tipo de mudança, são prisioneiros do presente. Os reacionários estão dispostos a sacrificar o presente e o futuro em nome da restauração de uma visão idílica do passado. Os progressistas ou revolucionários buscam romper com o passado e com o presente na tentativa de criar o utópico “outro mundo possível”. Os verdadeiros conservadores devem reconhecer a imperfectibilidade de seus projetos ao entender que a realidade política e cultural é marcada por uma contínua tensão entre permanências e mudanças.

É possível afirmar que o Brasil vive uma onda conservadora nesse momento de polarizações políticas generalizadas?

Apesar de muitos jovens adotarem o rótulo de conservador, principalmente nas redes sociais, não creio que exista, de fato, uma verdadeira onda conservadora no Brasil. A maioria desses pretensos conservadores são meros reacionários sonhando com o retorno de um passado idealizado ou desejam uma importação artificial de modelos europeus ou norte-americanos, sem uma visão muito clara dos princípios morais, das tradições culturais e das instituições sociais que desejam conservar. Há um perigoso desconhecimento de autores nacionais fundamentais, como Visconde de Cairu, Bernardo Pereira de Vasconcelos, Visconde de Uruguai, José de Alencar, Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, João Camilo de Oliveira Torres, Ubiratan Borges de Macedo, José Osvaldo de Meira Penna, Antonio Paim e tantos outros eminentes conservadores brasileiros.

Outros problemas graves são, por um lado, um caráter ideológico adotado por alguns desses novos “conservadores”, que ignoram ser “a política a arte do possível”, e, por outro lado, uma espécie de idolatria em relação à figura de políticos ou formadores de opinião, muitos deles fundamentados em visões estrangeiras apartadas de nossa realidade, reforçando tanto o culto à personalidade de determinados líderes quanto o fenômeno que Oliveira Vianna denominou “marginalismo das elites”. No entanto, essas imperfeições não anulam os inúmeros aspectos positivos desse movimento, que, em um futuro não muito distante, poderá se tornar, de fato, uma onda conservadora.

Capa

Capa do livro sobre a obra do conservador americano.

Colunas mestras do pensamento kirkiano, Ordem, Justiça e Liberdade são palavras um tanto esquecidas na vida pública e privada no Brasil. Isso explica em parte a “Terra Desolada” na qual nos encontramos?

Volto aqui ao tema do “marginalismo das elites”. A maioria de nossos intelectuais e de nossos políticos estão dissociados da realidade cultural e institucional vivida por parcela significativa da população, adotando ideias progressistas importadas da Europa ou dos Estados Unidos, que se expressaram em uma espécie de “autoritarismo ilustrado”, fundado na tradição cientificista, tal como manifestas ao longo dos últimos séculos no pombalismo, no positivismo, no castilhismo, no tenentismo, no varguismo, no integralismo, no janguismo, no desenvolvimentismo, no brizolismo e no petismo, dentre outros. Tal postura ideológica tende a acreditar que a sociedade pode ser remodelada de cima para baixo por intermédio de um tipo de engenharia social. Essa crença em “iluminados” salvadores da pátria tende a negligenciar as noções orgânicas de “ordem”, de “justiça” e de “liberdade”, fazendo que em nossa “terra desolada” as ideias mais recorrentes sejam as de “igualdade” e de “progresso”.

Defensor de uma educação pluralizada baseada nos valores da imaginação moral, Russell Kirk apontou o “dogma democrático” com um dos principais fatores da queda da qualidade do ensino, tendo e vista a manipulação imputada pelas ideologias, a tecnocracia liberal e a ideia de uma educação como meio de garantir a felicidade individual. Como enfrentar esse problema sabendo que ele é quase uma unanimidade no meio escolar?

Recordo aqui de uma sentença do eminente historiador católico britânico Hugh Trevor-Roper, segundo a qual a “educação universal criou uma massa de analfabetos letrados”. O fenômeno das redes sociais agravou o problema, ao transformar pessoas incapacitadas em formadores de opinião. Mais do que nunca, se tornou uma desoladora verdade a percepção de T. S. Eliot, quando nos “Coros de A Rocha” lançou o seguinte questionamento: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? / Onde está o conhecimento que perdemos na informação?”

O chamado “dogma democrático”, tal como defendido, por exemplo, nas teorias pedagógicas de Paulo Freire, se volta contra a tradição cultural de nossa civilização, impedindo que fundado em um patrimônio herdado das gerações passadas os mais jovens possam resistir à manipulação ideológica vigente em um modelo educacional centralizado e burocratizado. No entanto, paradoxalmente, as mesmas redes sociais e demais meios de comunicação que promovem uma espécie de “padronização sem padrões” estão permitindo que tal hegemonia seja, aos poucos quebrada. O mercado editorial é um exemplo disso. O próprio sucesso de vendas de livros de Russell Kirk e de outros autores conservadores ou liberais é a prova de que ainda há esperanças para revertermos o processo de revolução cultural esquerdista em nosso país.

Alex & Annette KirkO historiador ao lado de Annette Kirk, viúva do pensador que marcou o século XX.    

Russell Kirk teceu duras críticas a muitos intelectuais e personagens da vida pública norte-americana, sejam eles ligados aos Partidos Republicano ou Democrata. A seu ver, como ele analisaria a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA?

Em meu livro Russell Kirk: O Peregrino na Terra Desolada e em outros escritos, ressaltei que a coerência com os princípios defendidos sempre foi mais importante que as aparentes necessidades políticas conjunturais, fator que fez o pensador norte-americano criticar o uso de bombas nucleares contra o Japão durante a Segunda Guerra Mundial, censurar a atuação do senador republicano Joseph R. McCarthy e da John Birch Society na perseguição política e na denúncia aos comunistas, defender a liberdade acadêmica irrestrita opondo-se às ideias de William F. Buckley Jr. sobre a temática, notar os defeitos gerados pelo conformismo do chamado “American Way of Life” [modo de vida norte-americano], criticar os excessos dos libertários e dos neoconservadores, desaprovar a doutrina da guerra preventiva e a entrada dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, assim como avaliar negativamente o apoio quase incondicional da diplomacia norte-americana à Israel e o envolvimento, direto ou indireto, do país nos problemas do Oriente Médio, tal como se deu na guerra entre o Irã e Iraque, de 1980 a 1988, nos conflitos no Líbano, em 1983, e na Primeira Guerra do Golfo, em 1991. No plano da política partidária, Kirk apoiou, em 1976, a candidatura independente de Eugene J. McCarthy, por acreditar que não existiam diferenças de programa político entre o republicano Gerald Ford e o democrata Jimmy Carter. Em 1992, assumiu em Michigan a coordenação da campanha presidencial de Patrick Buchanan nas primárias do Partido Republicano como uma forma de expressar a desaprovação às direções tomadas pela administração de George H. W. Bush na política interna e nas relações externas.

Em resumo, podemos dizer que o grande intelectual conservador soube nadar contra a corrente dominante de muitas posturas associadas ao conservadorismo norte-americano. Creio que a postura de Russell Kirk em relação a Donald Trump seria muito parecida com a de sua viúva, Annette Kirk, que considera o atual presidente uma opção melhor do que Hillary Clinton, mas não é tão otimista quanto uma parcela de nossos conservadores, pois entende que mais importante que a figura individual de um político são a base religiosa, a cultura e as instituições. Não adiante esperar que um salvador da pátria assuma a responsabilidade que cabe individualmente a cada um de nós. Trump representa uma quebra da hegemonia da agenda esquerdista, mas, ao mesmo tempo, não conseguirá implementar de cima para baixo uma restauração que deve ter origem na base da sociedade. A política é o mais transitório dentre os campos de atuação de um conservador, por isso, seguindo os passos de T. S. Eliot e de Christopher Dawson, a importância da cultura foi enfatizada por Russell Kirk.

Para você, há falsos conservadores no campo do pensamento público e também nas redes sociais do Brasil hoje em dia?  São mal preparados, sabem o que dizem?

Existem falsos conservadores, do mesmo modo que existem falsos liberais e falsos socialistas. Mas, não cabe a mim adotar um papel de censor do conservadorismo ou lamentar este fato. Vejo com alegria a existência de tais oportunistas em nossas fileiras, pois mostra a viabilidade das ideias conservadoras. As pessoas que apenas buscam poder, fama ou dinheiro ao adotarem um conservadorismo de fachada são a prova que, cada vez mais, tais ideias estão ganhando um mercado, fazendo, assim, que apareçam aproveitadores tentando lucrar com elas. Não devemos cair em uma visão simplista achando que somente pessoas de reta intenção defenderão uma agenda conservadora. Historicamente, tanto no Reino Unido ou nos Estados Unidos quanto no Brasil tivemos figuras detestáveis compondo os partidos conservadores. A política é a arte do possível. Não será conseguiremos reverter o avanço da agenda esquerdista com um purismo doutrinário. O joio e o trigo sempre estarão em todos os campos, até mesmo entre os conservadores. Em um momento em que a redescoberta de tais ideias é uma novidade, os falsos profetas e os que prometem ser os salvadores da pátria ganham um espaço de maior destaque. Na medida em que as pessoas tomam conhecimento das fontes da doutrina conservadora, entretanto, atingiremos um grau de maior maturidade. Como alertou Winston Churchill, “é possível enganar todos por algum tempo; até mesmo, é possível enganar alguns o tempo todo; mas, não se pode enganar todos o tempo todo”.

Você elenca no livro Russell Kirk: O Peregrino na Terra Desolada uma série de autores do passado que de alguma forma comungam de alguns aspectos do pensamento kirkiano. É possível listar nomes da atualidade que também almejam vencer as tolices do tempo em busca de uma ordem transcendente?

Um dos maiores riscos para um conservador é na defesa da grande tradição do passado não reconhecer os herdeiros desta no presente, se tornando um amargo saudosista que enxerga apenas decadência no mundo ao nosso redor. Temos grandes nomes no presente. Dentre os autores vivos nos Estados Unidos, onde tenho mais contato, cito James V. Schall, S.J., David Walsh, Gertrude Himmelfarb, Robert George, Thomas Sowell, Mary Ann Glendon, Claes Ryn, Ted V. McAllister, Jennifer Roback Morse, Gregory Wolfe, Bradley Birzer e muitos outros, a maioria deles amigos pessoais. No ambiente europeu, lembro de Rémi Brague, Jean-Luc Marion, Jean Duchesne e Jean-Robert Armogathe na França, de Roger Scruton e Theodore Dalrymple no Reino Unido, de Rocco Buttiglione e Dario Anthiseri na Itália e de uma gama de outros intelectuais, cujas obras deveriam ser mais divulgadas em nosso país. No entanto, creio que a maior referência é, sem dúvida, o papa emérito Bento XVI, cujas visões teológicas e culturais devem ser uma referência obrigatória para nossos conservadores.

Antonio-Paim

Antonio Paim: referência no conservadorismo no Brasil.

A perseguição e o desaparecimento do sentimento religioso, fator determinante para o imperativo ético da ideia de Justiça no pensamento kirkiano e de T. S. Eliot, justificam, para ambos os autores, o crescimento da apatia e violência no universo do homem contemporâneo. Para você, avanços tecnológicos e científicos tendem expandir essa problemática ao dar uma sensação de conforto e segurança às pessoas?

A verdadeira ciência aproxima o homem de Deus, o problema se encontra no cientificismo, que, tal como apontado por Eric Voegelin e por Russell Kirk, dentre outros autores, é uma ideologia que simplifica a percepção da realidade. Nossa tradição política esquerdista, como demonstrou Antonio Paim, é herdeira do cientificismo do pombalismo e do positivismo. Não combateremos tais visões ideológicas, muitas delas ateístas e, simultaneamente, adotando o caráter de religião civil, negando a importância da ciência para a mentalidade moderna. O obscurantismo reacionário não é uma alternativa ao cientificismo.

 caso especifico dos avanços tecnológicos, não os devemos superestimar ou subestimar. A raiz e a solução de nossos problemas se encontram no próprio coração do ser humano. Não seremos condenados ou salvos pela tecnologia, pois ela é neutra, podendo ser utilizada tanto para o bem quanto para o mal.

As imagens de uma estória podem oferecer aqui uma visão mais clara sobre a questão. Trata-se da obra O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien, que era um dos trabalhos de ficção contemporânea favoritos de Russell Kirk. Na subcriação tolkieniana há uma relação necessária entre preservação da tradição, aceitação das mudanças inerentes à dinâmica histórica, defesa da liberdade individual contra o arbítrio do poder, exaltação da criatividade, e luta contra a massificação que destrói a singularidade individual de cada criatura. Diante de todas essas características os escritos de Tolkien podem ser vistos como negação tanto da postura reacionária contrária a qualquer mudança, tal como assumida por Denethor, quanto da atitude revolucionário, expressa no projeto progressista de Saruman.

Kirk anunciou em sua obra o fim da chamada “Era dos Debates” por conta do advento do rádio, meio de comunicação que foi um divisor de águas naquele período. Em tempos de fragmentação do pensamento e dos meios de apreensão da realidade, o crescimento da Internet trouxe de volta ou não o valor do debate público?

A noção kirkiana de “Era dos Debates” se refere muito mais aos valores de racionalidade iluminista, que foram, em parte, suplantados em nossa “Era dos Sentimentos” pela visão romântica de Jean-Jacques Rousseau e de seus discípulos. A noção de razão instrumental se mostrou limitada. A tarefa de um conservador em nossos dias não é apenas de convencer racionalmente a superioridade de nossas ideias, além de comunicar as mentes, temos que tocar os corações. Nesse sentido as redes sociais se tornam uma nova ágora na qual os defensores das “coisas permanentes” poderão utilizar a “imaginação moral” para divulgar os princípios conservadores.

Não devemos perder a esperança. Onde muitos enxergam dificuldades, vejo oportunidades. Há um imenso trabalho de resgate cultural a ser feito. Nessa cruzada se faz necessário nos voltarmos para o estudo de importantes autores estrangeiros como Russell Kirk, mas, ao mesmo tempo, sem negligenciarmos o patrimônio conservador brasileiro, em especial, a tradição apresentada nos livros de João Camilo de Oliveira Torres e de Antonio Paim.

A Politica da Prudencia

O Russell Kirk Center for Cultural Renewal prepara algum evento para comemorar o centenário de nascimento do autor em 2018? Haverá algum evento ou lançamento editorial no Brasil para marcar a data?

O centenário de nascimento de Russell Kirk será celebrado nos Estados Unidos não apenas por eventos promovidos pelo Russell Kirk Center for Cultural Renewal, mas, também, por outras instituições como a Philadelphia Society, o Intercollegiate Studies Institute e a Heritage Foundation. No Brasil, está previsto para comemorar a data no ano de 2018, o lançamento pela É Realizações Editora da edição em português do livro The Conservative Mind [A Mentalidade Conservadora], bem como um evento com a participação de familiares e de especialistas no pensamento kirkiano. Estou envolvido em outros projetos relacionados a este centenário, mas, no momento não posso revelar mais detalhes.

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Dominus Vobiscum

“Um 'Anima Christi' ou uma 'Ave Maria Gratia Plena' enriquece qualquer momento de oração. Para mim, o maior benefício do latim é espiritual”, diz o professor Josair Bastos.

“Um ‘Anima Christi’ ou uma ‘Ave Maria Gratia Plena’ enriquece qualquer momento de oração. Para mim, o maior benefício do latim é espiritual”, diz o professor Josair Bastos.

Por Marco Aurélio Bissoli

A língua oficial de Igreja Católica Apostólica Romana, o Latim, atravessou o tempo. Na Cidade-Estado do Vaticano e na  Santa Sé, ele resiste desde sempre, muito embora tenha caído em desuso nas celebrações da Missa após o Concílio Vaticano II, no final de década de 60.

Um livro publicado pelo professor curitibano Josair Bastos,  “Aprendendo Latim Eclesiástico”,  vem a público para resgatar uma das páginas imemoriais da Igreja do Cristo. Leitor de Teresa de Ávila, João da Cruz e Padre Pio e João Paulo II, ele travou contato com essa tradição quando esteve em contato com os monges da Abadia Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, em do Tenente (PR).

Formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e inglês com intercâmbios na Califórnia e Harvard (EUA), ele conversou com A Torre. “Para mim, o maior benefício do latim é espiritual”, disse. O livro recebeu elogios do Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria em Astana, Cazaquistão.

Conhecedor da obra de Jonh Lock, São Tomas de Aquino e do filósofo Eric Voegelin, Josair narra a seguir o seu périplo pela língua de uma miríade de autores clássicos, como Ovídio, Cícero, Virgílio, Horácio, Tito, Lívio, entre outros. Confira:

Gostaria que falasse um pouco da sua formação profissional.

Minha adolescência foi marcada por certa rebeldia à escola, sempre estava ao lado da “galera do fundão”. Por outro lado, minha mãe me motivava a ler livros em casa. Aos 13 anos, eu gostava de Sidney Sheldon e Arthur Conan Doyle. Já maior de idade, meu interesse passou à espiritualidade. Teresa de Ávila, João da Cruz, Padre Pio e João Paulo II eram os santos pelos quais tinha maior interesse. Depois conheci o Mosteiro Trapista, em Campo do Tenente (PR), e me interessei pelos místicos cistercienses do século XII, de onde me veio o desejo de aprender latim. Entrei na Universidade Federal do Paraná e, após concluir as matérias do latim clássico, pude me dedicar mais ao latim da Igreja.

Você começou a sua carreira na área da educação dando aulas no Abadia Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente (PR). Como foi essa experiência?

Conheci a Abadia Trapista em 2003 e desde o primeiro dia senti que aquele local era uma riquíssima fonte espiritual da Igreja. Sempre me retirava no Mosteiro em busca de um encontro contemplativo com Deus. Em 2008, o abade Dom Bernardo Bonowitz celebrou meu casamento em Curitiba. Em uma de nossas conversas, ele comentou que entrara um vocacionado vindo da Argentina, e que estava com dificuldades com o novo idioma. Passei, então, a viajar toda semana a Campo do Tenente para dar aulas de português ao irmão argentino, recém chegado. Foi uma das melhores experiências que tive. Entrar em contato direto com uma parte da clausura do Mosteiro é uma daquelas experiências da qual não há muito que dizer, apenas o contato pode dar um vislumbre do que seja aquele lugar místico da vida monástica trapista.

Como nasceu a ideia de escrever esse livro?

Desde o começo de minha vida acadêmica meu desejo era dedicar-me ao latim da Igreja, em especial às orações solenes e litúrgicas. Mas na universidade vemos muito pouco do latim eclesiástico e há, no Brasil, pouca coisa a respeito. Comecei, então, a traduzir algumas orações e, quando percebi, já havia traduzido e escrito um material que precisava ser partilhado. Nasceu a ideia do livro. Algumas vezes era difícil seguir em frente na elaboração dos conteúdos, mas sempre lembrava da passagem do Evangelho que fala dos dons enterrados, o que me fazia ‘desenterrar-me’ das cobertas às 5h da manhã para terminar o livro.

Qual a importância de se aprender o latim nos dia de hoje para todo católico?

Costumo dizer que o latim da Igreja é de fácil compreensão ao brasileiro, devido a sua proximidade ao português. Qualquer fiel, por humilde que seja, sabe que quando se reza “Pater noster”, tal oração se trata do Pai nosso. Um ‘Anima Christi’ ou uma ‘Ave Maria Gratia Plena’ enriquece qualquer momento de oração. Para mim, o maior benefício do latim é espiritual. Por que não pensar em um retorno à Missa em latim ao menos uma vez na semana? E isso poderia ser feito não necessariamente com a Missa Tridentina, mas com a Missa comum, a qual estamos acostumados. Depois que você aprende o significado de ‘Dominus Vobiscum’ ‘Et cum spiritu tuo’, você percebe melhor o sentido original da oração e por isso, a própria oração nos toca a alma de modo mais profundo.

Como você analisa o descaso para com o uso do latim em nossas celebrações eucarísticas no Brasil?

Há muita desinformação sobre a própria Missa. A Teologia da Libertação nos fez crer, por exemplo, que há 50 anos, o padre celebrava de costas para o povo, como gesto de superioridade. Isso é totalmente descabido. Dias desses, comentava com um senhor empresário, que me dizia justamente isso. Disse-lhe que podemos olhar este gesto com um sentido contrário. Ao invés de o sacerdote rezar de costas para o Santíssimo, ele se unia ao povo para, juntos, celebrar olhando, em reverência, ao Altar. O empresário me respondeu que nunca tinha pensado sobre este ângulo, que realmente fazia sentido.

Capa do livro lançado pelo especialista.

Capa do livro lançado pelo especialista.

Por outro lado, há um crescimento entre a nova geração pela tradição católica no Brasil. O livro dessa maneira serve como um guia para esse público?

Sim. O livro aproxima o fiel às orações mais comuns e também a algumas das mais belas orações da Igreja. Penso na possibilidade de um ‘Aprendendo Latim Eclesiástico 2’, para tratar mais especificamente do latim da Santa Missa. Seria uma continuidade. Assim, claro, o leitor terá que ter estudado este, que é lançado agora.

Que balanço você faz do Pontificado do Papa Francisco I ?

Quero destacar dois aspectos. Por um lado, penso que há coisas das quais não entendemos, mas provavelmente não compreendemos por nos faltar o real acontecimento dos fatos. O Vaticano possui as mais antigas fontes de informação do mundo, certamente muita coisa está além de nossa compreensão e, neste sentido, não podemos julgar atitudes do papa sem saber as causas reais de tais atos. Por outro lado, a Igreja afirma a infalibilidade papal em matéria de fé, mas até o papa pode se equivocar em relação a outros assuntos. Quando os fieis acreditam que o papa não acerta, os fieis, desde que mantendo o respeito à figura papal, podem assumir essa discordância.

Você tem um interesse muito grande por temas relacionados com a política nacional. Qual a sua análise desse momento conturbado vivido pelo governo petista?

Vivemos em um dos principais momentos da história do país. Por décadas somos atingidos por uma revolução cultural que pretende acabar com os pilares do Ocidente, isto é, derrubar o direito romano, a filosofia grega e a tradição cristã. Esta revolução tem por base a Teologia da Libertação e a esquerda política, movimento este que ganhou força com a práxis gramiscista. Com a queda do governo petista, inevitável a esta altura, o país dá um importante passo para a contra-revolução, que ainda há de se estender por muito tempo. Esta força opositora contra a esquerda, ainda que ramificada, está unida e, com certeza, o poder que nos governa há muito, teme este momento em que a direita, até então adormecida, ressurge através do povo. Apesar de não termos partidos de direita, o que vem ocorrendo é a afirmação da sociedade sobre a urgência de um movimento político que se oponha com vigor à esquerda e que de fato seja representativa do povo, e não uma máquina que pretenda revolucionar a cabeça de todos. Algo importante neste momento é a vontade dos cristãos em se envolver na política, não deixar que ela seja instrumentalizada nas mãos de quem não respeita a Igreja, não respeita a vida desde sua concepção, não respeita o direito natural etc. Este envolvimento das pessoas de boa vontade na cultura atual é, talvez, o fator mais forte da desestabilização da esquerda nas Américas.

Serviço

O livro “Aprendendo Latim Eclesiástico” pode ser adquirido através do site Mercado Livre, no seguinte endereço:  http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-741128111-livro-aprendendo-latim-eclesiastico-_JM .

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Dom Bertrand Orleans e Bragança sai em defesa da civilização cristã

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“O grande problema de muitos anticomunistas é que sabem o que não querem, mas não sabem o que devem querer, que é a restauração da cristandade”, afirma Dom Bertrand Orleans e Bragança.

Por Marco Aurélio Bissoli

Bisneto da princesa Isabel, segundo na linha de sucessão caso o país ainda fosse uma monarquia e Príncipe Imperial do Brasil, dom Bertrand Maria José Pio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança e Wittelsbach, de 75 anos, é um homem de olhar grave, gestos contidos e uma simpatia que cativa a cada um de seus interlocutores.

Amigo pessoal do incontestável líder católico no país, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira (1908-1995) – fundador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), ele enfrentou o processo revolucionário no Brasil nas ultimas décadas com determinação, baseando-se, sobretudo, nas promessas feitas aos pastorzinhos de Fátima, em Portugal, no ano de 1917, na qual Nossa Senhora afirmava que seu Imaculado Coração triunfaria sobre as maldades do mundo.

Trineto do Imperador Dom Pedro II, dom Bertrand lançou recentemente o livro “Psicose Ambientalista”, no qual refuta com base em cientistas renomados o discurso ambientalista, movimento que visa com base numa infundada teoria de proteção da natureza violar e até extinguir o direito de propriedade, cercear a produção e progresso, bem como criar uma nova governança mundial, acolitada por uma religião panteísta e miserabilista.

Veja a seguir a entrevista concedida por ele ao blog durante o XII Simpósio da Associação do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira (IPCO), em São Bernardo do Campo, ABC paulista, no último mês de fevereiro.

Qual a importância da realização desse XII Simpósio da Associação dos Fundadores e do Instituto Plinio Corrêa de Oliveira?

O simpósio se realiza dentro de um contexto histórico da maior importância. Ele tem em vista atualizar os melhores amigos do IPCO n consideração de como caminha o processo do embate entre a Revolução e a Contra-Revolução (termos aqui utilizados conforme o livro de autoria de Plinio Corrêa de Oliveira: Revolução e Contra Revolução). A ideia é que eles se preparem no seu dia-a-dia para atuarem no sentido da contra-revolução, isto é, combater tudo aquilo que visa destruir a civilização cristã. Nosso dever é defender e lutar no campo das ideias pela restauração da civilização cristã.

Por que o senhor tem se mostrado contra o discurso ambientalista hoje?

Para entendermos a situação da ecologia é preciso entender que os “vermelhos” ficaram “verdes”. Com o fracasso dos países comunistas, os comunistas não têm mais coragem de se dizer como tal, mas ecológicos. No fundo, acabam sendo como melancias: verdes por fora e vermelhos por dentro. O que eles querem é uma situação ecológica, uma mentalidade anti-religião, que visa criar um panteísmo, uma inversão de valores. No primeiro livro da Sagrada Escritura, Genesis, o que nós lemos que Deus Nosso Senhor criou o homem e uma mulher para crescerem e se multiplicarem e criou outras coisas para que os homens se sirvam delas para se alimentar. O homem com relação à natureza, ele não é o predador, mas o jardineiro de Deus. Os ecologistas dão a entender que o homem é o grande predador da natureza, que, para eles, neste caso, é deus.

Recentemente o senhor enviou uma carta ao Vaticano mostrando-se preocupado com as ações praticadas pelo Movimento Sem Terra (MST). O senhor obteve resposta?

Lamentavelmente não. O Vaticano promoveu em Roma um encontro de membros do Movimento Sem Terra (MST) e de ecologistas, hoje aceitos como verdadeiros mitos. O Papa Francisco I chegou a receber na ocasião o presidente do MST, João Pedro Stédile, fato que é um verdadeiro absurdo. Ele está por trás de invasões de propriedades e violações de bens dos outros. Perante Deus e a Justiça ele responde por tudo isso.

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O príncipe e os irmãos reunidos com o pai e a mãe, Maria Isabel da Baviera/Foto arquivo pessoal.

Qual o maior desafio para o combate à Revolução hoje em dia?

A gente poderia dizer qual é o grande desafio da Revolução hoje, pois ela está fracassando. A juventude está despertando para a volta da cristandade. Seu eu fosse de esquerda e comunista eu estaria com a barba de molho porque veria que o que existe de melhor na juventude é o fato dela buscar algo diferente. É algo que nunca houve nos últimos tempos. A maioria da população também está contra a esquerda. Basta ver as manifestações no Brasil e na Itália, onde centenas de milhares de pessoas marcharam em favor da família.

Como o senhor observa a onda conservadora e liberal propagada por figuras públicas como os jornalistas Reinaldo Azevedo, e os filósofos Luíz Felipe Pondé e Olavo de Carvalho?

Eles têm uma posição boa, são batalhadores e são francamente elogiáveis, só acho que eles deveriam dar maior conotação sobre a restauração da cristandade. O grande problema de muitos anticomunistas é que sabem o que não querem, mas não sabem o que devem querer, que é a restauração da cristandade.

Qual o balanço que o senhor faz do governo impetrado pelo Partido dos Trabalhadores no Brasil nestes 13 anos?

Vejo aquilo que todos os brasileiros veem: há uma agenda de destruição da cristandade. Em todas as suas leis há um denominador comum: a destruição da cristandade, da família, corrosão da propriedade, da tradição etc. O fracasso desse governo foi total. Nunca se viu tanta roubalheira nesse país. O Fato da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) ter apoiado esse governo é lamentável. Nosso problema é moral e religioso. A solução é restaurar a única religião verdadeira que é a Católica Apostólica e Romana.

Gostaria que o senhor nos deixasse suas considerações finais.

É preciso que não nos deixemos iludir pela situação atual. A única solução está naquilo que rezamos todo dia durante a oração do Pai Nosso. Precisamos restaurar uma civilização que respeite os Dez Mandamentos da Lei de Deus. Que problema haveria nela? Criminosos, ladrões, imoralidades? Não! Seria uma antecâmara do Céu, o reino social de Nosso Senhor Jesus Cristo.

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Dom Pedro Henrique (no colo da princesa Isabel em um retrato de 1909)/Foto arquivo pessoal.

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Monsieur Maurice Plas, a lenda

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Maurice e Robert seguram retrato do pai, o alfaiate e chapeleiro Maurice Plas, falecido em julho do ano passado.

Maurice e Robert seguram retrato do pai, o alfaiate e chapeleiro Maurice Plas, falecido em julho do ano passado.

Maurice e Robert seguram retrato do pai, o alfaiate e chapeleiro Maurice Plas, falecido em julho do ano passado.

Maurice e Robert seguram retrato do pai, o alfaiate e chapeleiro Maurice Plas, falecido em julho do ano passado.

O espaço que é símbolo da vida noturna e descolada da cidade de São Paulo, a rua Augusta, serve de cenário também para a lendária alfaiataria e chapelaria Plas. A pequena e charmosa loja funciona há mais de 60 anos no local.

Fundada pelo francês Maurice Plas (1930-2015), a loja virou ícone de bom gosto, vendendo ternos, bonés, gravatas, chapéus e boinas com sua marca registrada Quem recebeu o blog  A Torre no local foi Maurice, 49 anos, e Robert, 51 anos, filhos do fundador.

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Camisas multicoloridas convivem com as tradicionais boinas criados pelo artista.

O alfaiate faleceu em julho do ano passado, mas sua presença pode ser sentida em cada canto da loja criada na década de 50: o relógio antigo na parede – na sua família desde 1880, objetos de alfaiataria, quadros, pinturas e retratos. Um rico passado que se conjuga com o presente e com o futuro.

“Eu, que fiquei conhecido como um dos melhores alfaiates de São Paulo, passei a dedicar boa parte do meu tempo à estilização de vários modelos de boinas. Daí pra frente, meu trabalho foi destaque de inúmeros editoriais de moda”, disse certa vez Plas.

O senhor elegante, que costumava caminhar pelas imediações de sua loja diariamente para conversar com seus vizinhos comerciantes, acompanhou como poucos as transformações impostas ao chamado “Baixo Augusta”, hoje tomada por boates, novos prédios, hamburguerias gourmet, sebos e lojas de vinil. Mas ele não perdeu sua essência, mantendo um cenário que se afastava naturalmente das modernidades do comércio varejista.

Sua loja virou ponto de referencia para famosos, como Tarcísio Meira, Nando Reis, Rodrigo Lombardi, Ed Motta, Cauby Peixoto, Kylie Minogue. Na década de 90, uma ainda quase desconhecida modelo Gisele Bündchen faria um ensaio fotográfico na porta alfaiataria para uma importante revista de moda no Brasil, a Vogue.

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Monsieur Maurice Plas: arte de fazer peças únicas para gerações de paulistanos

Ele chegou ao Brasil em 1951, quando passou trabalhar com confecção no centro da cidade de São Paulo. Fugiu dos horrores da Segunda Grande Guerra Mundial, que devastou a Europa de uma ponta a outra.

Abriu a Plas focando na moda feminina para as mulheres que levavam os maridos para trabalhar na ainda glamurosa região da rua Augusta. Só depois focou seu trabalho na moda masculina. Trabalhou para boa parte da elite paulista fazendo ternos com tecidos vindos diretamente do exterior.

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Ambiente da loja relembra os anos 50, quando o emigrante francês chegou a ao Brasil, vindo de uma Europa arrasada pela guerra.

Trabalhou com produtos variados, como feltro, lã, panamá, brim, microfibra e linho. Na intimidade, gostava de ser chamado de Monsieur Maurice Plas.

Futuro

O filho Maurice explica que a Plas procurou se renovar para sobreviver, buscando uma nova geração de clientes. “Hoje o público é mais diversificado. Muitos jovens, artistas e pessoas ‘decoladas’ buscam um acessório de moda para se destacar. Buscamos ampliar o leque de produtos para atingir um número maior de consumidores”. Na vitrine da loja, camisas multicoloridas dão o tom dessa busca por novos horizontes.

“Meu pai tinha muito bom humor. Era também muito enérgico nas suas atitudes e pensamentos. Via com naturalidade as mudanças do mundo. Costumava dizer: ‘C`est la vie..”, diz Maurice a cerca das lembranças que guarda do fundador.

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Chapéus dos mais variados modelos se espalham pela loja da rua Augusta, em São Paulo.

Para o empresário, é difícil definir o que seja elegância. “É um dilema: O traje acrescenta algo à pessoa, ou é a personalidade que enriquece o traje? Poderíamos falar por horas a fio sobre esse tema”. Sobre o legado deixado pelo pai, ele diz que Plas foi alguém que durante décadas atuou na alfaiataria e na alta costura, sendo alguém que contribuiu para o cenário da moda no Brasil.

“O segredo é trabalhar com amor e entre a família. Enquanto um empregado normal quer trabalhar apenas 8 horas por dia, eu já cheguei a trabalhar das 7 da manhã até a meia-noite por anos seguidos. Já atendi todo tipo de gente, de políticos até artistas. E nunca neguei um único trabalho e sempre os realizei muito bem”, argumentou em uma entrevista certa ocasião Monsieur Maurice Plas.

Maurice Plas produziu um prêt-à-porter ideal para aquelas pessoas que têm pressa e não querem ser confundidas na multidão. O que não é uma missão fácil nos dias que correm. A reportagem deixou a loja com a esperança de alguém que quer retornar algum dia para conferir novamente o universo de um artista que tinha personalidade de sobra.

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Olavo tem razão

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O filósofo brasileiro Olavo de Carvalho durante as filmagens de O Jardim das Aflições, no Estado da Virginia, nos EUA. Obra procura reconstruir pensamento do autor por meio de imagens ( Fotos Matheus Bazzo e Mauro Ventura)

O filósofo, professor e jornalista Olavo de Carvalho é persona non grata no meio da intelectualidade brasileira. Longe do pensamento marxista – leia-se comunista, que forjou boa parte de uma geração de jornalistas, professores e pensadores nas últimas décadas no país, este senhor 68 anos virou uma espécie de bastião sagrado da direita, católica e conservadora.

Depois de décadas atuando de forma independente no Brasil através de artigos, aulas presenciais e online e dezenas de livros publicados na área da Filosofia, Olavo de Carvalho se viu recentemente diante das lentes do jornalista e escritor recifense Josias Teófilo, 29 anos, que acaba de produzir um documentário sobre ele.

Filmado no Estado da Virginia, nos Estados Unidos – onde o filósofo reside com a família, O Jardim das Aflições, em fase de montagem, procura desvendar o pensamento do homem que certa vez escreveu: “A essência da mentalidade conservadora é a aversão a qualquer projeto de transformação abrangente, a recusa obstinada de intervir na sociedade como um todo, o respeito quase religioso pelos processos sociais regionais, espontâneos e de longo prazo, a negação de toda autoridade aos porta-vozes do futuro hipotético”.

Além de se dedicar à literatura e a produção cinematográfica, Josias Teófilo é também articulista da Revista Continente. O blog A Torre conversou com o autor para falar o documentário, cujo lançamento não tem data definida. Confira o bate-papo:

Como surgiu a ideia de fazer o documentário O Jardim das Aflições?

Surgiu a partir da necessidade que eu vi de retratar essa figura que é, por si próprio, cinematográfica – a vida de Olavo de Carvalho é muito cheia de imagens. Ele atira, caça, vive num lugar paradisíaco, cercado da família e de uma imensa biblioteca, vai à missa numa igreja belíssima com uma ótima programação musical. É muito difícil fazer um filme sobre filosofia, dado que traduzir em imagens um pensamento é algo extremamente complexo. Note que existem muito poucos filmes sobre filosofia, e menos ainda bons filmes. Olavo nos deu uma oportunidade imensa que é de registrar um filósofo, no seu ambiente ou circunstância, refletindo sobre vários temas que lhe são caros. De modo que não só ele fala, mas o próprio ambiente também fala através de imagens.

Fale um pouco de como se deu a pré-produção, filmagem e pós-produção do filme (pesquisa, tempo de filmagem, locação etc).

O financiamento coletivo foi dividido em três fases: a primeira para a realização do roteiro e fotos para o cartaz, a segunda para a filmagem e a terceira para finalização e distribuição. Já realizamos as duas primeiras, a terceira vai ser iniciada agora ainda em novembro e quem doar vai receber inclusive o DVD do filme, depois de circular por festivais e pelo cinema comercial.

Por que optou pelo financiamento do filme pela plataforma crowdfundig (financiamento coletivo) ao invés do financiamento estatal?

Primeiro porque seria provavelmente impossível captar recursos estatais para um filme sobre Olavo de Carvalho, que é a figura mais relevante da oposição no país, mas também porque seria incompatível com o seu pensamento. Ele me disse: dinheiro do Estado faz mal! E ele próprio nunca foi financiado pelo governo.

O Jardim das Aflições é um filme manifesto sobre o pensamento de Olavo de Carvalho ou uma homenagem a ele? Nesse sentido é um filme chapa-branca sobre o filósofo?

O Jardim das Aflições não é um manifesto porque nenhuma obra de arte verdadeira pode sê-lo, e nem é uma homenagem, também não é chapa-branca porque não é sobre ele, mas é, por assim dizer, com ele. É na verdade uma viagem guiada pelo seu pensamento, tendo como pano de fundo a vida cotidiana e a sua, para usar um termo de Ortega y Gasset, circunstância. Desde que fomos à Virgínia Olavo disse que não queria um filme sobre ele, mas em que fosse enfocada a mensagem que ele tem para dar – e essa já era minha intenção original. O filme, então, é sobre os temas que ele fala. Esses temas ainda são segredo, quem ver o filme saberá.

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O diretor ao lado do filósofo Olavo de Carvalho

Sabemos da dificuldade que muitos cineastas brasileiros têm com relação à distribuição de seus filmes no circuito, digamos, comercial. Isso é uma preocupação no seu caso? O filme, a seu ver, pode virar um blockbuster ou terá um público específico, no caso as “olavetes”?

É sim, até porque nós não sabemos quando captaremos os recursos para distribuição. O que é certo é que o filme tem um público potencial imenso e não é voltado exclusivamente para o público “olavete” (alunos e admiradores de Olavo de Carvalho). O filme é voltado para o público em geral, basta ter interesse por filosofia ou para entender a vida mais a fundo, por assim dizer.

Você se recente da grande mídia não ter dado muito bola para esse projeto?

A grande mídia não foi informada sobre o projeto ainda, não é que ela não tenha dado bola – não enviamos release nem nada pra eles. Com relação à mídia de uma forma geral, temos tido uma recepção maior do que eu poderia imaginar: tivemos uma foto de página inteira na capa do Caderno Viver do Diario de Pernambuco, o mesmo no Jornal do Comércio, e eu dei várias entrevistas para veículos pelo Brasil.

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“Olavo de Carvalho não é valorizado pelos formadores de opinião – ou seja, pela elite que a tudo controla nesse país. Ele é valorizado pelos seus tantos milhares de leitores e alunos”, diz Josias Teófilo.

Como foi a sua convivência com Olavo de Carvalho durante as filmagens? Qual a reação dele ao ver seu cotidiano ser invadido por uma equipe de filmagem?

Foi uma experiência incrível, não só para mim que concebi o projeto, mas para o resto da equipe que eu convidei – inclusive um deles que é de esquerda e ficou realmente impressionado com o pensamento de Olavo de Carvalho, e com a sua simpatia no trato. Mauro Ventura, que foi meu assistente de direção no filme e que cuida da página dele no Facebook, disse que nunca viu Olavo tão aberto e empolgado com um projeto como com o nosso filme. Imagine, 10 dias de filmagem, às vezes várias horas por dia. Perguntei o que ele achou de ser filmado, ele disse que foi uma ótima experiência de condensar seu pensamento e dar um panorama geral.

Olavo de Carvalho sempre foi uma espécie de corpo estranho no universo da intelectualidade brasileira, fortemente marcada pelo pensamento marxista. Para você, qual a razão de seu pensamento ser pouco valorizado dentro de seu próprio país?

Suponho que não seja valorizado pelos formadores de opinião – ou seja, pela elite que a tudo controla nesse país. Ele é valorizado pelos seus tantos milhares de leitores e alunos.

Quais são as suas principais influências cinematográficas?

Principalmente Andrei Tarkóvski – cineasta que tem uma obra profundamente mística e religiosa, foi por causa dele que eu resolvi fazer filmes. Mas também Robert Bresson, Dreyer, Rohmer. No cinema documentário, os filmes de João Moreira Salles.

Como recebeu as críticas e a indiferença de muitos ex-alunos de Olavo de Carvalho a respeito do filme e do próprio filósofo?

Críticas eu ainda não vi nenhuma, mas indiferença notei de algumas pessoas. Mas isso vai passar quando o filme estiver no cinema, vão vir atrás de mim e vão ser os primeiros a comprar o DVD do filme.

Um dos temas centrais da obra de Olavo de Carvalho é uma volta às origens do pensamento individual, da valorização da alta cultura em face da derrisão dos valores morais, religiosos e éticos. Nesses tempos sombrios em que vivemos em todos esses campos, o filme já nasce atual?

Sua pergunta vai no âmago do que o filme trata. É exatamente isso, e Olavo de Carvalho mostra exatamente no filme como lidar com esses tempos sombrios.

Quais são as suas expectativas para a finalização do projeto? Há uma data prevista para o lançamento do filme? As pessoas que quiserem colaborar podem fazê-lo? De que forma?

Eu espero terminar a montagem do filme em janeiro, mas isso vai depender das doações para finalização e distribuição. Quem quiser colaborar com o filme pode entrar no nosso site e fazer sua doação: http://www.ojardimdasaflicoes.com.br .

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O Estado Babá

O lamaçal dos escanda-los políticos escorre pelas páginas dos jornais a cada dia. A economia brasileira vai mal das pernas. O país parece querer vir à lona novamente por conta da crise institucional e política. Tudo isso para o desgosto de milhares de brasileiros. A velha cantilena se repete há décadas e com ela um mar de incertezas.

Se você, caro leitor, se encaixa no coro dos descontentes, o melhor a fazer é ler o livro Pare de acreditar no governo: por que razão os brasileiros não cofiam nos políticos e amam o Estado (Record, 320 pág.). O título um pouco pretencioso é assinado pelo cientista político Bruno Garschagen, e vem a calhar nesse agonizante momento porque passa o país.

Em um recorte sucinto de épocas e acontecimentos históricos, Garschagen analisa a questão numa escrita clara e objetiva, sem abrir mão da ironia. “A República nasceu maculada. Fruto de um golpe de Estado, jamais conseguiu superar as virtudes construídas pela Monarquia. Com a República, o que era ruim não era novo, e o que era novo era péssimo”, alfineta.

Capa do livro "Pare de Acreditar no Governo: Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado"

Capa do livro “Pare de Acreditar no Governo: Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado”

O resultado é uma análise profunda dos fatos gerados pelo estatismo, o intervencionismo, o protecionismo, o nacionalismo, o inflacionismo, o dirigismo, e tantos outros “ismos” que ajudaram a moldar máxima do “quanto mais Estado melhor”, isto é, quando o poder político centralizador passa a se impor sobre a sociedade, controlando-a de todas as formas.

Por isso, do escrivão Pero Vaz de Caminha (1450-1500) – o primeiro a pedir uma “boquinha estatal” ao rei português, a Dilma Rousseff, responsável por engordar ainda mais o Estado brasileiro (39 pastas, entre ministérios e secretárias, nada passa desapercebido ao olhar do autor.

A complexidade do aparelhamento estatal ao longo dos anos e de como ele mantém acorrentados os pés de seus cidadãos diz muito sobre o modo de ser de cada brasileiro, cujo vício preferido parece ser o de mimar e ser mimado pelo Estado. Essa inter-relação de amor e ódio permeia a maioria dos capítulos.

O autor mostra que o resultado dessa simbiose expõe as contradições de cidadãos que exigem milhares de direitos, mas se mostram pouco ou nada dispostos com relação a assumir seus deveres. Um exemplo clássico recente apontado no livro foram os protestos de 2013. Naquela ocasião centenas de brasileiros saíram às ruas para pedir ao governo a redução das passagens dos transportes públicos, esquecendo-se que o problema foi criado pelo próprio governo.

“As consequências da atuação do governo transbordam os limites da política e da economia. Influem no comportamento, nos hábitos, nos costumes. Gradualmente, operam uma engenharia social dissimulada, indolor e extremamente eficaz. As pessoas passam a pensar e a agir segundo um código ideológico”, analisa.

Garschagen aponta os mecanismos responsáveis que unem (e desunem) eleitores e políticos, mas passa longe do simples maniqueísmo entre “esquerda e direita”, discurso esse que costuma inflamar o debate público raso de nossos dias. Para ele, a política deve ser tratada com um certo distanciamento para que deixe de ser o centro orbital onde hoje gravita nossas vidas.

Segundo o autor, o obstáculo para alcançar esse objetivo seria menos uma questão de ordem política, mas sim cultural e institucional. “Se chegar o momento no qual as instituições políticas e os políticos forem dignos de alguma confiança, talvez porque a política formal e o governo não terão mais a importância que têm hoje, será possível, inclusive desprezá-los, sem qualquer risco para a nossa integridade física, financeira e social”. Nunca antes na história desse país alguém escreveu algo mais sensato.

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A HISTÓRIA REVELADA

O historiador e doutor em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), professor Rodrigo Coppe Caldeira.

O historiador e doutor em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), professor Rodrigo Coppe Caldeira.

Por Marco Aurélio Bissoli

Ele reescreveu parte de um dos capítulos mais importantes da história da Igreja Apostólica Católica Romana, o Concílio Vaticano II (1961-1965), evento que aprofundou as relações da mais antiga instituição religiosa do Ocidente com o mundo ao seu redor.

Foi nesse cenário riquíssimo que o historiador e doutor em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), professor Rodrigo Coppe Caldeira, se debruçou para contar a luta travada por dois grupos de padres conciliares, os chamados conservadores brasileiros, liderados pelos bispos D. Antonio de Castro Mayer e D. Geraldo de Proença Sigaud, e os liberais europeus – entre eles o pernambucano Dom Helder Câmara (1909-1999).

O resultado inédito do trabalho deste mineiro veio a público com o lançamento do livro “Os Baluartes da Tradição – O conservadorismo católico brasileiro no Concilio Vaticano II” (Editora CRV/2011), cuja pesquisa mergulha nos meandros das ações desses dois grupos que moldaram o modo de ser da Igreja pós-conciliar no século XX para sempre.

Coppe conversou conosco sobre a Igreja de ontem e hoje. Veja os principais trechos da conversa:

Como nasceu a ideia de escrever o livro e de que forma ele preenche uma lacuna na bibliografia do Concílio Vaticano II?

O livro foi resultado de uma tese de doutorado em Ciências da religião defendida em 2009. Desde meu curso de graduação em História, entre 1999-2002, tinha grande interesse pela história das religiões, mais particularmente da Igreja Católica romana. Percebi, na rica convivência de aprendizado, que falavam muito do chamado “progressismo católico”/”esquerda católica”, de suas correntes teológicas principais, como a Teologia da Libertação. Descobri um mundo no qual não se falava, e que a historiografia brasileira tinha tido predileções e que isso era também um sinal de que estava no caminho certo. Fui estudar o chamado, por falta de conceitos, “conservadorismo católico brasileiro”. Nesse estudo descobri que os bispos D. Antonio de Castro Mayer e D. Geraldo de Proença Sigaud eram ligados a Tradição Família e Propriedade (TFP) e que no Vaticano II tinham tido um papel fundamental na organização de uma corrente que se opunha à onda do ‘aggiornamento’. Consultei bibliotecas internacionais e descobri que quase nada tinha sido escrito sobre esse grupo, chamado de “Coetus Internationalis Patrum”. Entrei de cabeça em vários arquivos, inclusive na Itália, e produzi a história desses dois bispos no concílio. Ainda, no Brasil, é o único trabalho sobre a temática.

O movimento ultramontano nunca esteve tão presente no Brasil de hoje, muito embora seus grupos não mantenham uma unidade, pelo contrário, parecem tender a divergências e acirramentos contínuos. Isso a seu ver pode enfraquecer essa corrente dentro da Igreja?

Não falaria em movimento ‘ultramontano’, já que ele é um movimento que está situado no século XIX e na Europa. É uma revisão que faço hoje dos conceitos utilizados na minha tese. Acho sim que um novo conservadorismo católico aparece, mas que também é marcado por inúmeras facetas. Não dá pra fazer um balaio conceitual que englobaria todos esses grupos. E isso não é de hoje. No Brasil o conservadorismo católico teve vários rostos: a “TFP”, o grupo “Permanência”, “Hora Presente”… Não são novidade essas várias facetas.

Os padres conciliares do grupo “Coetus Internationalis Patrum” em defesa da ortodoxia católica no Concílio Vaticano II.

Os padres conciliares do grupo “Coetus Internationalis Patrum”: em defesa da ortodoxia católica no Concílio Vaticano II.

Que analise você faz da atuação da CNBB, uma das instituições mais criticadas pelos grupos tradicionalistas – que vê nela uma ameaça em favor do socialismo político hoje no Brasil?

A CNBB teve papel muito importante no século XX no Brasil, especialmente pelo papel de alguns de seus bispos, as únicas autoridades com quem o regime militar falava, com bem demonstrou Ken Serbin em seu “Diálogo nas sombras”. A CNBB também não é monolítica, mas é uma instituição com bispos de inúmeras tendências políticas e religiosas. No jogo político há sempre exageros de parte a parte, e esse tipo de pecha que querem fixar na instituição, a “favor do socialismo político”, não ajuda na análise, mas apenas mostra as posições e os excessos de alguns grupos. Que, de fato, existem bispos que têm simpatia com o governo Dilma Rousseff, por exemplo, não duvido, e que existam outros bastante críticos ao governo, também não. Agora, falar que os primeiros são defensores do socialismo, ou, que os segundos são partidários da burguesia nacional e defensores dos “interesses neoliberais”, penso ser bobagem.

Em recente artigo você pareceu defender o posicionamento do papa Francisco diante das críticas internas que recebe do clero tradicional. Que balanço você faz do seu papado?

Acho precipitado um balanço de mais de pouco dois anos de um papado. Estamos ainda fazendo balanços de João Paulo II! Contudo, podemos arriscar algumas posições. Como historiador, não posso negar a novidade que Francisco traz, sendo um latino-americano, um jesuíta. Além disso, uma figura de fora das estruturas curiais do Vaticano. Sua pegada pastoral, sua forma de ser, seus gestos, ressoam de maneira bastante eloquente entre as massas. Até mesmo entre aqueles que até outro dia se posicionavam de maneira anti-clerical, depositam nele grande esperança. Vejo que há um certo exagero, principalmente pelos recortes que vem sendo feitos pela mídia de modo geral. Francisco não é uma figura fácil de ser encaixado em rótulos. E isso é bom! Mas há um esforço de se fazer dele um baluarte do “progressismo católico”. Isso, para mim, é um fato. Algo que também não é novo na história da Igreja. Os papas sempre foram apropriados de maneira politicamente interesseira – a apropriação sempre é assim. Francisco tem se posicionado em favor da reforma da Igreja, tema importantíssimo, e que cola nas as questões levantadas pelo Vaticano II. Esse é um ponto fundamental. O papa parece retormar questões conciliares, da presença da Igreja no mundo, chamando atenção para os aspectos do diálogo e do encontro.

Outro ponto a ser destacado pelos tradicionalistas é o fato da Doutrina Social da Igreja ter dominado o discurso contemporâneo da instituição, em detrimento de outros, como a Mística, a ideia mesmo de Inferno, o cumprimento dos Mandamentos e a valorização da Liturgia em toda a sua riqueza, entre outros pontos. O senhor concorda com tais argumentos?

Não sei. Acho que a questão social é muito importante, e não significa que esteja descolada das questões místicas. É preciso saber fazer a síntese, e muitos místicos contemporâneos tentaram caminhar nesse sentido. De fato, a Igreja age no mundo com os olhos na eternidade, mas isso não significa que deva estar à margem dele, mas sim se envolver com seus problemas, pensar e propor caminhos. A grande questão atual ao meu ver é como o cristianismo pode ser novamente apresentado como um caminho existencial, uma forma de vida, um sentido. É isso que parece estar por trás também dos movimentos do Francisco. Considero todas as preocupações desses que estão ligados às perspectivas mais tradicionais da Igreja, e reconheço suas preocupações frente ao turbilhão em que estamos metidos. Reagem a ele. No entanto, o que me parece, é que às vezes, alguns deles, se demonstram mais preocupados com a forma do que com conteúdos, com o que aparece do que com a vivência, esquecendo-se daquilo que realmente importa, que é se fazer um com aqueles que sofrem. O grande convite do Vaticano II, ao meu ver, foi o da conversão. Um chamado à santidade, de todo o “Povo de Deus”, conceito fundamental de seus textos. Essa perspectiva ainda aparece de maneira muito incipiente nas discussões.

Para você, até que ponto procede o argumento de que o Papa Francisco estaria a perseguir grupos ligados a tradição, como por exemplo as congregações dos Franciscanos da Imaculada e das Franciscanas da Imaculada?

Houve esses casos referidos, em que Francisco desautorizou de alguma forma as perspectivas mais “tradicionais”. No entanto, esse não parece ser um tema chave do papado, como foi de Bento XVI, que se esforçou em acabar com o cisma entre Roma e os tradicionalistas da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). Quando fala em “grupos ligados à tradição”, dá a impressão de que o papa não se importa com ela, o que não é verdade. O que preocupa parece ser aqueles grupos que entendem a “tradição” de maneira fixa, engessada, morta, o que Bento XVI fez também inúmeras críticas.

 

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O Incansável Cavaleiro

Dr.-Ives-Gandra

. “Enquanto não diminuirmos a saúva da “burocracia aparelhada” em 39 ministérios, é difícil uma reforma tributária real”, afirma Ives Gandra Martins.

*Por Marco Aurélio Bissoli

Ele é um dos nomes consagrados do meio jurídico e um dos grandes poetas da chamada Geração de 45, que uniu o rigor das formas com sensibilidade única na literatura brasileira. Ives Gandra Martins, 79 anos, traz consigo a integridade intelectual e o amor ao país.

Advogado tributarista, professor, escritor e jurista, o autor é também articulista dos principais jornais paulistanos. Com sua argúcia costumeira, brinda seus leitores com pontos de vista pertinentes sobre temas da atualidade. O autor apresenta também o programa Anatomia do Poder, que vai ao ar pela Rede Vida de Televisão.

Ives Gandra Martins é professor emérito da Universidade Mackenzie, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e da Escola Superior de Guerra. E membro da Academia Paulista de Letras e do Instituto dos Advogados de São Paulo.

Um dos mais antigos membros da prelazia Opus Dei da Igreja Católica Apostólica Romana no país, o jurista entrou no debate para defender a instituição do retrato feito pelo escritor Dan Brown em seu livro O Código Da Vinci. O jurista garante ter posto abaixo todos os argumentos mostrados na obra.

Ives Gandra Martins, 65 anos, dedicou boa parte de sua vida ao fazer poético. Os versos começaram a ser inscritos aos 13 anos de idade. Todos os 12 livros publicados ao longo da carreira foram reunidos num único volume pelo próprio autor e lançados recentemente sob o título “Poesia Completa” (Editora Resistência Cultural).

Trata-se de uma obra única que apresenta ao leitor o vasto universo construído pelo poeta através de suas vivências pessoais. Transformada em seu porto seguro, a poiésis retém a sublimidade de um simples instante, fazendo-o crescer em graça e sabedoria. “A artrite de mamãe é minha herança,/e quanto mais a sinto, mais a quero”, escreveu o autor.

O volume traz ainda dezenas de poemas dedicados a Ruth, esposa e companheira de toda a vida de Ives Gandra Martins. “O tema do meu verso é sempre o mesmo -/espaço, tempo, amor e nostalgia”. Sua poesia também abre espaço para a reflexão política, a crônica de momentos, dialoga com as lendas, versa sobre o amor à pátria, entre outros temas.

Com belíssimo prefácio do Príncipe dos Poetas Brasileiros, Paulo Bomfim, e apresentação do pianista e irmão do autor, o maestro João Carlos Martins, o volume traz ainda projeto gráfico, capa, ilustrações e diagramação de Caroline Rêgo, cujo trabalho enche de beleza os olhos do leitor.

A seguir você confere uma entrevista exclusiva concedida por Ives Gandra Martins, que fala sobre o saldo das últimas eleições, a necessidade de uma profunda e urgente reforma tributária no Brasil, sua visão sobre o governo da Presidente Dilma Rousseff, e claro, de sua poesia. Confira:

Em artigos publicados na imprensa paulistana, o senhor tem criticado duramente o governo de Dilma Rousseff. Houve um fracasso em seu projeto político?

É um fracasso. Escrevi um artigo recente sobre minhas irritações com a presidente, a quem apoiei nos primeiros meses de governo. Alta inflação, baixo PIB, contas públicas desajustadas, déficit real na balança comercial e no superávit primário coberto por manobras contábeis, aumento da miséria em 2013 para 2014, conforme denunciado pelo IPEA, perda de grau de investimento internacional por renomada agência de “rating”, desatrosa e desestimuladora política tributária, corrupção dominante na Petrobrás, que só pode decorrer de incompetência (8 anos de assalto às suas contas) ou conivência, algo que está sendo apurado, desconstrução do Itamarati, submissão aos títeres bolivarianos que impõem suas exigências cada vez maiores ao governo brasileiro, além de um elenco infindável de desastres parciais nas diversas áreas de sua administração.

Muito se falou do baixo nível das campanhas presidenciais e de um país dividido após o resultado das urnas no pleito deste ano. O senhor concorda com tais afirmativas?

Sim. A presidente com 38% dos eleitores inscritos e com uma campanha, à Goebbels, de destruição de reputações, comandada por um publicitário imitador das técnicas daquele auxiliar de Hitler, abriu um fosso que só o tempo mostrará se poderá ou não ser transposto. É difícil dialogar com quem, durante meses, especializou-se em dizer inverdades e desfigurar imagens.

A necessidade de uma profunda reforma tributária é um tema antigo dentro da política nacional. Ela chegou até mesmo a servir de inspiração para o senhor no campo da poesia, na qual “O cinismo fiscal (…) contamina os governos desfalcados”. O que fazer para mudar esse quadro?

Fui membro da Comissão, denominada para nosso desconforto, “de Notáveis” pelo Senado. Apresentamos 12 anteprojetos –éramos 13 os especialistas– para o governo. Estão adormecidos nas gavetas daquela Casa Legislativa. É que a reforma tributária depende de uma reforma administrativa. A máquina burocrática esclerosada e inchada absorve as forças da nação e condiciona o nível da carga fiscal. Enquanto não diminuirmos a saúva da “burocracia aparelhada” em 39 ministérios, é difícil uma reforma tributária real.

Novo livro reúne 65 anos de trabalhos dedicados a poesia, porto seguro de todas as horas para o autor.

Novo livro reúne 65 anos de trabalhos dedicados a poesia, porto seguro de todas as horas para o autor.

Uma das mais frutíferas e importantes instituições católicas, a Opus Dei, nos últimos anos tem sido alvo não só de curiosidade do grande público, como também de críticas, principalmente após o livro O Código Da Vinci (Dan Brown). Como membro da instituição, como analisa essa situação?

No meu artigo “A farsa consagrada” aponto todos os erros palmares de Dan Brown sobre a Igreja e sobre o Opus Dei, que o faria ser reprovado em qualquer vestibular de história de qualquer faculdade de país civilizado. Como a “mentira promovida” vende, vendeu os livros, que, todavia, caíram no esquecimento, enquanto a Igreja e o Opus Dei, por serem instituições eternas, permanecem inatingidas. O Opus Dei é uma prelazia pessoal com um único objetivo: o de promover a santificação do trabalho ordinário. Por esta razão o seu fundador, Josémaria Escrivá, foi canonizado e seu sucessor, Dom Álvaro, beatificado. Seguem meus “Decálogo do trabalho ordinário” e “Decálogo do Advogado” inspirados em São Josémaria Escrivá.

Como representante da chamada Geração de 45, o senhor se coloca como um amante da forma fixa por excelência, o soneto. Esse exercício de lapidação das palavras e dos versos foi algo caro à sua escrita?

Sou amante da forma e do conteúdo. Poema tem que ter melodia. Muitos dos poetas atuais, incapazes de musicarem com palavras seus versos, atacam a forma clássica, mas, muitas vezes, apresentam mais reflexões, que pretendem poéticas e que não chegam a ser filosóficas, dizendo serem versos. A Geração de 45 resgatou a forma clássica e deu conteúdo moderno às idéias. O soneto, que Paulo Bomfim, chama de “traje a rigor” da poesia exige o talento de colocar todo um poema em apenas 14 versos. Considero a mais perfeita forma poética, seja no estilo inglês ou italiano.

O que significa reunir e publicar todo o seu legado poético em um único volume nesse momento de sua carreira?

Alegra-me muito ter podido colocar 12 livros de poesia num só. Se será ou não um legado poético só o tempo dirá.

Ao ler o livro, impressiona o número de poemas dedicados à sua companheira de mais de 60 anos, Ruth. Qual a exata dimensão da presença dela dentro da sua jornada existencial e literária?

Ruth é tudo na minha vida. Colega de classe, mãe de nossos seis filhos, 61 anos de namoro, 56 de casados, estando comigo, nos bons e maus momentos, e fazendo-me de novo conviver com Deus, na religião Católica. Tornou-se, pois, a própria razão de ser da minha vida. Nada mais lógico, portanto, que grande parte de meus poemas lhe sejam dedicados.

Seu eu lírico parece reunir em si a fé, a esperança e a caridade, três virtudes teologias por excelência. Neste sentido, é possível falar em uma ‘poesia genuinamente católica’?

O livro é um livro com muitos poemas dedicados à Deus, à Virgem e ao nosso universo católico. É impregnado por ele. É, todavia, também, um livro romântico, de crítica política, de poemas épicos, de lendas etc.

O senhor afirma que a poesia constitui um porto seguro frente à massificação da arte transformada em entretenimento e a destruição dos valores tradicionais. Poderá ela vencer essa batalha?

A arte é constituída de obras clássicas e atuais para a época. Ptolomeu foi um cientista atual para a época, mas sua teoria não permaneceu. Copérnico ficou clássico e sua teoria permanece. Salieri foi um compositor querido à época, Mozart um compositor clássico. Mozart permanece, Salieri não. Em outras palavras, a arte eterna fica, aquela apenas contemporânea não resiste ao tempo.

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São Bruno e Santa Teresa à Luz de São Lucas

 Ícone Bizantino-Russo de São Lucas Pintando A Virgem e o Menino


Ícone Bizantino-Russo de São Lucas Pintando A Virgem e o Menino

O mês de outubro oferece a nós cristãos momentos especiais de reflexão. É nele que a Igreja celebra, no próximo dia 18, a Festa de São Lucas Evangelista. Autor do terceiro dos quatro evangelhos canônicos, o texto nos apresenta um amplo arco temporal que vai do Nascimento do Messias à sua Ascensão ao Céu.

É possível estabelecer ao menos quatro características essenciais mostradas com ênfase pelo evangelista: a importância da oração, a atividade do Espírito Santo, a alegria e o cuidado de Deus para com os mais necessitados, as crianças e as mulheres. Narrativas importantes como a do Filho Pródigo e o Bom Samaritano, são apresentadas somente em seu evangelho.

A partir da experiência evangélica narrada por São Lucas podemos também mergulhar no testemunho de vida de dois santos cuja memória também celebramos neste mês: Santa Teresa de Ávila (15 de outubro) e São Bruno de Colônia (6 de outubro). Modelos distintos de testemunhar a fé, ambos, no entanto, engendram de maneira radical a experiência evangélica através da vida contemplativa.

Numa era marcada cada vez mais pelos avanços tecnológicos e científicos, que acabam por encurtar distâncias, propiciar conforto, bem estar e dinamizar a qualidade de vida das pessoas, pensar nas figuras de Teresa de Ávila (1515-1582) e Bruno de Colônia (1035-1101) seja talvez mero romantismo de nossa parte.

Imagem de São Bruno feita por Manuel Pereira na Cartuxa de Miraflores (Espanha) datada do séc. XVI

Imagem de São Bruno feita por Manuel Pereira na Cartuxa de Miraflores (Espanha) datada do séc. XVI

É como se imaginássemos os dois santos vivendo tranquilamente suas   vidas em claustros e celas de mosteiros numa Europa Medieval,  sombria e idealizada. Ambos distantes dos problemas que afligiam os homens de seu tempo, como a guerra, a fome e pestes de toda sorte. Dois privilegiados, quem sabe, enclausurados dentro de um mundo fechado e inacessível.

Os fatos, contudo, tendem a nos mostrar que a experiência religiosa devotada pelo alemão São Bruno e a espanhola Santa Teresa são na verdade provocadores para nós leigos, convidados a vivenciar somente uma fé apostólica e ativa, mas esquecendo-se muitas vezes da sua dimensão também contemplativa, expressada pelo recolhimento, o silêncio, a oração e a escuta atenta da Palavra de Deus.

Nessa perspectiva, Teresa de Ávila (1515-1582), que foi também Mística e Doutora da Igreja, nos ensina a buscar uma vida de oração intensa, profunda e generosa. É esse recolhimento necessário que propicia a nós ouvirmos a Voz do Criador. Não por acaso, o próprio São Lucas dedica sete momentos de seu evangelho a mostrar o próprio Jesus recolhido em oração.

Outra característica importante do evangelho de São Lucas encontrada na vida de Santa Teresa era sua vontade de caminhar. Como Jesus, a carmelita cruzava longas distâncias a pé ou montada em seu burrinho por toda a Espanha.  Ela era aquela que parte, que sai do seu lugar comum em busca do outro.

Da mesma forma, o santo da solidão e do silêncio, São Bruno, embora seja praticamente desconhecido de muitos brasileiros, também nos faz redescobrir novos valores nesse século XXI agitado, marcado pelo alarido ensurdecedor do relativismo, da fé na política como redentora dos nossos problemas morais, éticos e civilizatórios, e do ego alçado a categoria de protagonista do espaço público e privado.

Fundador da Ordem dos Cartuxos – a mais antiga instituição religiosa católica sem nunca ter passado por uma única reforma desde que foi fundada em 1084, São Bruno é o cavaleiro da delicadeza, do equilíbrio e da sabedoria buscada entre as pedras do seu primeiro deserto, a Grande Chartreuse, mosteiro fundado nos Alpes escarpados e gelados da França.

"O êxtase de Santa Teresa", Gian Lorenzo Bernini (1645-1652)

“O êxtase de Santa Teresa”, Gian Lorenzo Bernini (1645-1652)

O santo costumava dizer que o monge é aquele “que está separado de todos e unido a todos”. Cultivava para si e seus filhos não uma solidão infecunda, egoísta e imatura voltada para si mesma, mas aquela que propiciava aquilo que para ele era essencial: Deus. Seu anonimato vivido com simplicidade, jejuns, silêncio e orações entre as paredes de sua cela é um sinal profético para todos nós.

Como lema de sua ordem, São Bruno proclamou a máxima: “O mundo gira enquanto a cruz permanece”. Que possamos aprender com ele e com Santa Teresa que a verdadeira salvação está ancorada somente em Jesus Cristo, o Alfa e o Ômega, isto é, começo e o fim de tudo.

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