São Bruno e Santa Teresa à Luz de São Lucas

 Ícone Bizantino-Russo de São Lucas Pintando A Virgem e o Menino


Ícone Bizantino-Russo de São Lucas Pintando A Virgem e o Menino

O mês de outubro oferece a nós cristãos momentos especiais de reflexão. É nele que a Igreja celebra, no próximo dia 18, a Festa de São Lucas Evangelista. Autor do terceiro dos quatro evangelhos canônicos, o texto nos apresenta um amplo arco temporal que vai do Nascimento do Messias à sua Ascensão ao Céu.

É possível estabelecer ao menos quatro características essenciais mostradas com ênfase pelo evangelista: a importância da oração, a atividade do Espírito Santo, a alegria e o cuidado de Deus para com os mais necessitados, as crianças e as mulheres. Narrativas importantes como a do Filho Pródigo e o Bom Samaritano, são apresentadas somente em seu evangelho.

A partir da experiência evangélica narrada por São Lucas podemos também mergulhar no testemunho de vida de dois santos cuja memória também celebramos neste mês: Santa Teresa de Ávila (15 de outubro) e São Bruno de Colônia (6 de outubro). Modelos distintos de testemunhar a fé, ambos, no entanto, engendram de maneira radical a experiência evangélica através da vida contemplativa.

Numa era marcada cada vez mais pelos avanços tecnológicos e científicos, que acabam por encurtar distâncias, propiciar conforto, bem estar e dinamizar a qualidade de vida das pessoas, pensar nas figuras de Teresa de Ávila (1515-1582) e Bruno de Colônia (1035-1101) seja talvez mero romantismo de nossa parte.

Imagem de São Bruno feita por Manuel Pereira na Cartuxa de Miraflores (Espanha) datada do séc. XVI

Imagem de São Bruno feita por Manuel Pereira na Cartuxa de Miraflores (Espanha) datada do séc. XVI

É como se imaginássemos os dois santos vivendo tranquilamente suas   vidas em claustros e celas de mosteiros numa Europa Medieval,  sombria e idealizada. Ambos distantes dos problemas que afligiam os homens de seu tempo, como a guerra, a fome e pestes de toda sorte. Dois privilegiados, quem sabe, enclausurados dentro de um mundo fechado e inacessível.

Os fatos, contudo, tendem a nos mostrar que a experiência religiosa devotada pelo alemão São Bruno e a espanhola Santa Teresa são na verdade provocadores para nós leigos, convidados a vivenciar somente uma fé apostólica e ativa, mas esquecendo-se muitas vezes da sua dimensão também contemplativa, expressada pelo recolhimento, o silêncio, a oração e a escuta atenta da Palavra de Deus.

Nessa perspectiva, Teresa de Ávila (1515-1582), que foi também Mística e Doutora da Igreja, nos ensina a buscar uma vida de oração intensa, profunda e generosa. É esse recolhimento necessário que propicia a nós ouvirmos a Voz do Criador. Não por acaso, o próprio São Lucas dedica sete momentos de seu evangelho a mostrar o próprio Jesus recolhido em oração.

Outra característica importante do evangelho de São Lucas encontrada na vida de Santa Teresa era sua vontade de caminhar. Como Jesus, a carmelita cruzava longas distâncias a pé ou montada em seu burrinho por toda a Espanha.  Ela era aquela que parte, que sai do seu lugar comum em busca do outro.

Da mesma forma, o santo da solidão e do silêncio, São Bruno, embora seja praticamente desconhecido de muitos brasileiros, também nos faz redescobrir novos valores nesse século XXI agitado, marcado pelo alarido ensurdecedor do relativismo, da fé na política como redentora dos nossos problemas morais, éticos e civilizatórios, e do ego alçado a categoria de protagonista do espaço público e privado.

Fundador da Ordem dos Cartuxos – a mais antiga instituição religiosa católica sem nunca ter passado por uma única reforma desde que foi fundada em 1084, São Bruno é o cavaleiro da delicadeza, do equilíbrio e da sabedoria buscada entre as pedras do seu primeiro deserto, a Grande Chartreuse, mosteiro fundado nos Alpes escarpados e gelados da França.

"O êxtase de Santa Teresa", Gian Lorenzo Bernini (1645-1652)

“O êxtase de Santa Teresa”, Gian Lorenzo Bernini (1645-1652)

O santo costumava dizer que o monge é aquele “que está separado de todos e unido a todos”. Cultivava para si e seus filhos não uma solidão infecunda, egoísta e imatura voltada para si mesma, mas aquela que propiciava aquilo que para ele era essencial: Deus. Seu anonimato vivido com simplicidade, jejuns, silêncio e orações entre as paredes de sua cela é um sinal profético para todos nós.

Como lema de sua ordem, São Bruno proclamou a máxima: “O mundo gira enquanto a cruz permanece”. Que possamos aprender com ele e com Santa Teresa que a verdadeira salvação está ancorada somente em Jesus Cristo, o Alfa e o Ômega, isto é, começo e o fim de tudo.

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Sobre marcobissoli

Jornalista, profesor de Literatura e blogueiro
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