A HISTÓRIA REVELADA

O historiador e doutor em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), professor Rodrigo Coppe Caldeira.

O historiador e doutor em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), professor Rodrigo Coppe Caldeira.

Por Marco Aurélio Bissoli

Ele reescreveu parte de um dos capítulos mais importantes da história da Igreja Apostólica Católica Romana, o Concílio Vaticano II (1961-1965), evento que aprofundou as relações da mais antiga instituição religiosa do Ocidente com o mundo ao seu redor.

Foi nesse cenário riquíssimo que o historiador e doutor em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), professor Rodrigo Coppe Caldeira, se debruçou para contar a luta travada por dois grupos de padres conciliares, os chamados conservadores brasileiros, liderados pelos bispos D. Antonio de Castro Mayer e D. Geraldo de Proença Sigaud, e os liberais europeus – entre eles o pernambucano Dom Helder Câmara (1909-1999).

O resultado inédito do trabalho deste mineiro veio a público com o lançamento do livro “Os Baluartes da Tradição – O conservadorismo católico brasileiro no Concilio Vaticano II” (Editora CRV/2011), cuja pesquisa mergulha nos meandros das ações desses dois grupos que moldaram o modo de ser da Igreja pós-conciliar no século XX para sempre.

Coppe conversou conosco sobre a Igreja de ontem e hoje. Veja os principais trechos da conversa:

Como nasceu a ideia de escrever o livro e de que forma ele preenche uma lacuna na bibliografia do Concílio Vaticano II?

O livro foi resultado de uma tese de doutorado em Ciências da religião defendida em 2009. Desde meu curso de graduação em História, entre 1999-2002, tinha grande interesse pela história das religiões, mais particularmente da Igreja Católica romana. Percebi, na rica convivência de aprendizado, que falavam muito do chamado “progressismo católico”/”esquerda católica”, de suas correntes teológicas principais, como a Teologia da Libertação. Descobri um mundo no qual não se falava, e que a historiografia brasileira tinha tido predileções e que isso era também um sinal de que estava no caminho certo. Fui estudar o chamado, por falta de conceitos, “conservadorismo católico brasileiro”. Nesse estudo descobri que os bispos D. Antonio de Castro Mayer e D. Geraldo de Proença Sigaud eram ligados a Tradição Família e Propriedade (TFP) e que no Vaticano II tinham tido um papel fundamental na organização de uma corrente que se opunha à onda do ‘aggiornamento’. Consultei bibliotecas internacionais e descobri que quase nada tinha sido escrito sobre esse grupo, chamado de “Coetus Internationalis Patrum”. Entrei de cabeça em vários arquivos, inclusive na Itália, e produzi a história desses dois bispos no concílio. Ainda, no Brasil, é o único trabalho sobre a temática.

O movimento ultramontano nunca esteve tão presente no Brasil de hoje, muito embora seus grupos não mantenham uma unidade, pelo contrário, parecem tender a divergências e acirramentos contínuos. Isso a seu ver pode enfraquecer essa corrente dentro da Igreja?

Não falaria em movimento ‘ultramontano’, já que ele é um movimento que está situado no século XIX e na Europa. É uma revisão que faço hoje dos conceitos utilizados na minha tese. Acho sim que um novo conservadorismo católico aparece, mas que também é marcado por inúmeras facetas. Não dá pra fazer um balaio conceitual que englobaria todos esses grupos. E isso não é de hoje. No Brasil o conservadorismo católico teve vários rostos: a “TFP”, o grupo “Permanência”, “Hora Presente”… Não são novidade essas várias facetas.

Os padres conciliares do grupo “Coetus Internationalis Patrum” em defesa da ortodoxia católica no Concílio Vaticano II.

Os padres conciliares do grupo “Coetus Internationalis Patrum”: em defesa da ortodoxia católica no Concílio Vaticano II.

Que analise você faz da atuação da CNBB, uma das instituições mais criticadas pelos grupos tradicionalistas – que vê nela uma ameaça em favor do socialismo político hoje no Brasil?

A CNBB teve papel muito importante no século XX no Brasil, especialmente pelo papel de alguns de seus bispos, as únicas autoridades com quem o regime militar falava, com bem demonstrou Ken Serbin em seu “Diálogo nas sombras”. A CNBB também não é monolítica, mas é uma instituição com bispos de inúmeras tendências políticas e religiosas. No jogo político há sempre exageros de parte a parte, e esse tipo de pecha que querem fixar na instituição, a “favor do socialismo político”, não ajuda na análise, mas apenas mostra as posições e os excessos de alguns grupos. Que, de fato, existem bispos que têm simpatia com o governo Dilma Rousseff, por exemplo, não duvido, e que existam outros bastante críticos ao governo, também não. Agora, falar que os primeiros são defensores do socialismo, ou, que os segundos são partidários da burguesia nacional e defensores dos “interesses neoliberais”, penso ser bobagem.

Em recente artigo você pareceu defender o posicionamento do papa Francisco diante das críticas internas que recebe do clero tradicional. Que balanço você faz do seu papado?

Acho precipitado um balanço de mais de pouco dois anos de um papado. Estamos ainda fazendo balanços de João Paulo II! Contudo, podemos arriscar algumas posições. Como historiador, não posso negar a novidade que Francisco traz, sendo um latino-americano, um jesuíta. Além disso, uma figura de fora das estruturas curiais do Vaticano. Sua pegada pastoral, sua forma de ser, seus gestos, ressoam de maneira bastante eloquente entre as massas. Até mesmo entre aqueles que até outro dia se posicionavam de maneira anti-clerical, depositam nele grande esperança. Vejo que há um certo exagero, principalmente pelos recortes que vem sendo feitos pela mídia de modo geral. Francisco não é uma figura fácil de ser encaixado em rótulos. E isso é bom! Mas há um esforço de se fazer dele um baluarte do “progressismo católico”. Isso, para mim, é um fato. Algo que também não é novo na história da Igreja. Os papas sempre foram apropriados de maneira politicamente interesseira – a apropriação sempre é assim. Francisco tem se posicionado em favor da reforma da Igreja, tema importantíssimo, e que cola nas as questões levantadas pelo Vaticano II. Esse é um ponto fundamental. O papa parece retormar questões conciliares, da presença da Igreja no mundo, chamando atenção para os aspectos do diálogo e do encontro.

Outro ponto a ser destacado pelos tradicionalistas é o fato da Doutrina Social da Igreja ter dominado o discurso contemporâneo da instituição, em detrimento de outros, como a Mística, a ideia mesmo de Inferno, o cumprimento dos Mandamentos e a valorização da Liturgia em toda a sua riqueza, entre outros pontos. O senhor concorda com tais argumentos?

Não sei. Acho que a questão social é muito importante, e não significa que esteja descolada das questões místicas. É preciso saber fazer a síntese, e muitos místicos contemporâneos tentaram caminhar nesse sentido. De fato, a Igreja age no mundo com os olhos na eternidade, mas isso não significa que deva estar à margem dele, mas sim se envolver com seus problemas, pensar e propor caminhos. A grande questão atual ao meu ver é como o cristianismo pode ser novamente apresentado como um caminho existencial, uma forma de vida, um sentido. É isso que parece estar por trás também dos movimentos do Francisco. Considero todas as preocupações desses que estão ligados às perspectivas mais tradicionais da Igreja, e reconheço suas preocupações frente ao turbilhão em que estamos metidos. Reagem a ele. No entanto, o que me parece, é que às vezes, alguns deles, se demonstram mais preocupados com a forma do que com conteúdos, com o que aparece do que com a vivência, esquecendo-se daquilo que realmente importa, que é se fazer um com aqueles que sofrem. O grande convite do Vaticano II, ao meu ver, foi o da conversão. Um chamado à santidade, de todo o “Povo de Deus”, conceito fundamental de seus textos. Essa perspectiva ainda aparece de maneira muito incipiente nas discussões.

Para você, até que ponto procede o argumento de que o Papa Francisco estaria a perseguir grupos ligados a tradição, como por exemplo as congregações dos Franciscanos da Imaculada e das Franciscanas da Imaculada?

Houve esses casos referidos, em que Francisco desautorizou de alguma forma as perspectivas mais “tradicionais”. No entanto, esse não parece ser um tema chave do papado, como foi de Bento XVI, que se esforçou em acabar com o cisma entre Roma e os tradicionalistas da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). Quando fala em “grupos ligados à tradição”, dá a impressão de que o papa não se importa com ela, o que não é verdade. O que preocupa parece ser aqueles grupos que entendem a “tradição” de maneira fixa, engessada, morta, o que Bento XVI fez também inúmeras críticas.

 

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Sobre marcobissoli

Jornalista, profesor de Literatura e blogueiro
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