O Estado Babá

O lamaçal dos escanda-los políticos escorre pelas páginas dos jornais a cada dia. A economia brasileira vai mal das pernas. O país parece querer vir à lona novamente por conta da crise institucional e política. Tudo isso para o desgosto de milhares de brasileiros. A velha cantilena se repete há décadas e com ela um mar de incertezas.

Se você, caro leitor, se encaixa no coro dos descontentes, o melhor a fazer é ler o livro Pare de acreditar no governo: por que razão os brasileiros não cofiam nos políticos e amam o Estado (Record, 320 pág.). O título um pouco pretencioso é assinado pelo cientista político Bruno Garschagen, e vem a calhar nesse agonizante momento porque passa o país.

Em um recorte sucinto de épocas e acontecimentos históricos, Garschagen analisa a questão numa escrita clara e objetiva, sem abrir mão da ironia. “A República nasceu maculada. Fruto de um golpe de Estado, jamais conseguiu superar as virtudes construídas pela Monarquia. Com a República, o que era ruim não era novo, e o que era novo era péssimo”, alfineta.

Capa do livro "Pare de Acreditar no Governo: Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado"

Capa do livro “Pare de Acreditar no Governo: Por que os Brasileiros não Confiam nos Políticos e Amam o Estado”

O resultado é uma análise profunda dos fatos gerados pelo estatismo, o intervencionismo, o protecionismo, o nacionalismo, o inflacionismo, o dirigismo, e tantos outros “ismos” que ajudaram a moldar máxima do “quanto mais Estado melhor”, isto é, quando o poder político centralizador passa a se impor sobre a sociedade, controlando-a de todas as formas.

Por isso, do escrivão Pero Vaz de Caminha (1450-1500) – o primeiro a pedir uma “boquinha estatal” ao rei português, a Dilma Rousseff, responsável por engordar ainda mais o Estado brasileiro (39 pastas, entre ministérios e secretárias, nada passa desapercebido ao olhar do autor.

A complexidade do aparelhamento estatal ao longo dos anos e de como ele mantém acorrentados os pés de seus cidadãos diz muito sobre o modo de ser de cada brasileiro, cujo vício preferido parece ser o de mimar e ser mimado pelo Estado. Essa inter-relação de amor e ódio permeia a maioria dos capítulos.

O autor mostra que o resultado dessa simbiose expõe as contradições de cidadãos que exigem milhares de direitos, mas se mostram pouco ou nada dispostos com relação a assumir seus deveres. Um exemplo clássico recente apontado no livro foram os protestos de 2013. Naquela ocasião centenas de brasileiros saíram às ruas para pedir ao governo a redução das passagens dos transportes públicos, esquecendo-se que o problema foi criado pelo próprio governo.

“As consequências da atuação do governo transbordam os limites da política e da economia. Influem no comportamento, nos hábitos, nos costumes. Gradualmente, operam uma engenharia social dissimulada, indolor e extremamente eficaz. As pessoas passam a pensar e a agir segundo um código ideológico”, analisa.

Garschagen aponta os mecanismos responsáveis que unem (e desunem) eleitores e políticos, mas passa longe do simples maniqueísmo entre “esquerda e direita”, discurso esse que costuma inflamar o debate público raso de nossos dias. Para ele, a política deve ser tratada com um certo distanciamento para que deixe de ser o centro orbital onde hoje gravita nossas vidas.

Segundo o autor, o obstáculo para alcançar esse objetivo seria menos uma questão de ordem política, mas sim cultural e institucional. “Se chegar o momento no qual as instituições políticas e os políticos forem dignos de alguma confiança, talvez porque a política formal e o governo não terão mais a importância que têm hoje, será possível, inclusive desprezá-los, sem qualquer risco para a nossa integridade física, financeira e social”. Nunca antes na história desse país alguém escreveu algo mais sensato.

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Sobre marcobissoli

Jornalista, profesor de Literatura e blogueiro
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