Dominus Vobiscum

“Um 'Anima Christi' ou uma 'Ave Maria Gratia Plena' enriquece qualquer momento de oração. Para mim, o maior benefício do latim é espiritual”, diz o professor Josair Bastos.

“Um ‘Anima Christi’ ou uma ‘Ave Maria Gratia Plena’ enriquece qualquer momento de oração. Para mim, o maior benefício do latim é espiritual”, diz o professor Josair Bastos.

Por Marco Aurélio Bissoli

A língua oficial de Igreja Católica Apostólica Romana, o Latim, atravessou o tempo. Na Cidade-Estado do Vaticano e na  Santa Sé, ele resiste desde sempre, muito embora tenha caído em desuso nas celebrações da Missa após o Concílio Vaticano II, no final de década de 60.

Um livro publicado pelo professor curitibano Josair Bastos,  “Aprendendo Latim Eclesiástico”,  vem a público para resgatar uma das páginas imemoriais da Igreja do Cristo. Leitor de Teresa de Ávila, João da Cruz e Padre Pio e João Paulo II, ele travou contato com essa tradição quando esteve em contato com os monges da Abadia Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, em do Tenente (PR).

Formado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e inglês com intercâmbios na Califórnia e Harvard (EUA), ele conversou com A Torre. “Para mim, o maior benefício do latim é espiritual”, disse. O livro recebeu elogios do Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria em Astana, Cazaquistão.

Conhecedor da obra de Jonh Lock, São Tomas de Aquino e do filósofo Eric Voegelin, Josair narra a seguir o seu périplo pela língua de uma miríade de autores clássicos, como Ovídio, Cícero, Virgílio, Horácio, Tito, Lívio, entre outros. Confira:

Gostaria que falasse um pouco da sua formação profissional.

Minha adolescência foi marcada por certa rebeldia à escola, sempre estava ao lado da “galera do fundão”. Por outro lado, minha mãe me motivava a ler livros em casa. Aos 13 anos, eu gostava de Sidney Sheldon e Arthur Conan Doyle. Já maior de idade, meu interesse passou à espiritualidade. Teresa de Ávila, João da Cruz, Padre Pio e João Paulo II eram os santos pelos quais tinha maior interesse. Depois conheci o Mosteiro Trapista, em Campo do Tenente (PR), e me interessei pelos místicos cistercienses do século XII, de onde me veio o desejo de aprender latim. Entrei na Universidade Federal do Paraná e, após concluir as matérias do latim clássico, pude me dedicar mais ao latim da Igreja.

Você começou a sua carreira na área da educação dando aulas no Abadia Trapista Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente (PR). Como foi essa experiência?

Conheci a Abadia Trapista em 2003 e desde o primeiro dia senti que aquele local era uma riquíssima fonte espiritual da Igreja. Sempre me retirava no Mosteiro em busca de um encontro contemplativo com Deus. Em 2008, o abade Dom Bernardo Bonowitz celebrou meu casamento em Curitiba. Em uma de nossas conversas, ele comentou que entrara um vocacionado vindo da Argentina, e que estava com dificuldades com o novo idioma. Passei, então, a viajar toda semana a Campo do Tenente para dar aulas de português ao irmão argentino, recém chegado. Foi uma das melhores experiências que tive. Entrar em contato direto com uma parte da clausura do Mosteiro é uma daquelas experiências da qual não há muito que dizer, apenas o contato pode dar um vislumbre do que seja aquele lugar místico da vida monástica trapista.

Como nasceu a ideia de escrever esse livro?

Desde o começo de minha vida acadêmica meu desejo era dedicar-me ao latim da Igreja, em especial às orações solenes e litúrgicas. Mas na universidade vemos muito pouco do latim eclesiástico e há, no Brasil, pouca coisa a respeito. Comecei, então, a traduzir algumas orações e, quando percebi, já havia traduzido e escrito um material que precisava ser partilhado. Nasceu a ideia do livro. Algumas vezes era difícil seguir em frente na elaboração dos conteúdos, mas sempre lembrava da passagem do Evangelho que fala dos dons enterrados, o que me fazia ‘desenterrar-me’ das cobertas às 5h da manhã para terminar o livro.

Qual a importância de se aprender o latim nos dia de hoje para todo católico?

Costumo dizer que o latim da Igreja é de fácil compreensão ao brasileiro, devido a sua proximidade ao português. Qualquer fiel, por humilde que seja, sabe que quando se reza “Pater noster”, tal oração se trata do Pai nosso. Um ‘Anima Christi’ ou uma ‘Ave Maria Gratia Plena’ enriquece qualquer momento de oração. Para mim, o maior benefício do latim é espiritual. Por que não pensar em um retorno à Missa em latim ao menos uma vez na semana? E isso poderia ser feito não necessariamente com a Missa Tridentina, mas com a Missa comum, a qual estamos acostumados. Depois que você aprende o significado de ‘Dominus Vobiscum’ ‘Et cum spiritu tuo’, você percebe melhor o sentido original da oração e por isso, a própria oração nos toca a alma de modo mais profundo.

Como você analisa o descaso para com o uso do latim em nossas celebrações eucarísticas no Brasil?

Há muita desinformação sobre a própria Missa. A Teologia da Libertação nos fez crer, por exemplo, que há 50 anos, o padre celebrava de costas para o povo, como gesto de superioridade. Isso é totalmente descabido. Dias desses, comentava com um senhor empresário, que me dizia justamente isso. Disse-lhe que podemos olhar este gesto com um sentido contrário. Ao invés de o sacerdote rezar de costas para o Santíssimo, ele se unia ao povo para, juntos, celebrar olhando, em reverência, ao Altar. O empresário me respondeu que nunca tinha pensado sobre este ângulo, que realmente fazia sentido.

Capa do livro lançado pelo especialista.

Capa do livro lançado pelo especialista.

Por outro lado, há um crescimento entre a nova geração pela tradição católica no Brasil. O livro dessa maneira serve como um guia para esse público?

Sim. O livro aproxima o fiel às orações mais comuns e também a algumas das mais belas orações da Igreja. Penso na possibilidade de um ‘Aprendendo Latim Eclesiástico 2’, para tratar mais especificamente do latim da Santa Missa. Seria uma continuidade. Assim, claro, o leitor terá que ter estudado este, que é lançado agora.

Que balanço você faz do Pontificado do Papa Francisco I ?

Quero destacar dois aspectos. Por um lado, penso que há coisas das quais não entendemos, mas provavelmente não compreendemos por nos faltar o real acontecimento dos fatos. O Vaticano possui as mais antigas fontes de informação do mundo, certamente muita coisa está além de nossa compreensão e, neste sentido, não podemos julgar atitudes do papa sem saber as causas reais de tais atos. Por outro lado, a Igreja afirma a infalibilidade papal em matéria de fé, mas até o papa pode se equivocar em relação a outros assuntos. Quando os fieis acreditam que o papa não acerta, os fieis, desde que mantendo o respeito à figura papal, podem assumir essa discordância.

Você tem um interesse muito grande por temas relacionados com a política nacional. Qual a sua análise desse momento conturbado vivido pelo governo petista?

Vivemos em um dos principais momentos da história do país. Por décadas somos atingidos por uma revolução cultural que pretende acabar com os pilares do Ocidente, isto é, derrubar o direito romano, a filosofia grega e a tradição cristã. Esta revolução tem por base a Teologia da Libertação e a esquerda política, movimento este que ganhou força com a práxis gramiscista. Com a queda do governo petista, inevitável a esta altura, o país dá um importante passo para a contra-revolução, que ainda há de se estender por muito tempo. Esta força opositora contra a esquerda, ainda que ramificada, está unida e, com certeza, o poder que nos governa há muito, teme este momento em que a direita, até então adormecida, ressurge através do povo. Apesar de não termos partidos de direita, o que vem ocorrendo é a afirmação da sociedade sobre a urgência de um movimento político que se oponha com vigor à esquerda e que de fato seja representativa do povo, e não uma máquina que pretenda revolucionar a cabeça de todos. Algo importante neste momento é a vontade dos cristãos em se envolver na política, não deixar que ela seja instrumentalizada nas mãos de quem não respeita a Igreja, não respeita a vida desde sua concepção, não respeita o direito natural etc. Este envolvimento das pessoas de boa vontade na cultura atual é, talvez, o fator mais forte da desestabilização da esquerda nas Américas.

Serviço

O livro “Aprendendo Latim Eclesiástico” pode ser adquirido através do site Mercado Livre, no seguinte endereço:  http://produto.mercadolivre.com.br/MLB-741128111-livro-aprendendo-latim-eclesiastico-_JM .

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Sobre marcobissoli

Jornalista, profesor de Literatura e blogueiro
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