O FRESCOR DA TRADIÇÃO

“Não devemos perder a esperança. Onde muitos enxergam dificuldades, vejo oportunidades. Há um imenso trabalho de resgate cultural a ser feito”, diz o historiador carioca.

Por Marco Aurélio Bissoli

Um dos principais pensadores conservadores norte-americanos, Kussell Kirk, tem ganhado cada vez mais espaço no mercado editorial brasileiro com vendagens significativas. O interesse pelo tema mostra a onda conservadora que caminha a passos largo pelo país.

Responsável pela revisão técnica das edições nacionais dos livros de Russel Kirk publicados no Brasil, o historiador e pesquisador carioca Alex Catharino falou com exclusividade ao blog A Torre sobre esse fenômeno diante de uma nação acostumada a golpes de Estado, revoluções e crimes de corrupção ao longo de sua história.

Depois de lançar “A Era de T. S. Eliot: A Imaginação Moral do Século XX”, “A Política da Prudência”, “A Mentalidade Conservadora: De Edmund Burke a T. S. Eliot” e “Edmund Burke: Redescobrindo um Gênio”, o historiador colocou no mercado no ano passado um estudo primoroso chamado “Russel Kirk – O Peregrino na Terra Desolada”. Todos os títulos lançados pela editora “É Realizações”.

Para falar sobre estes e outros assuntos, reproduzimos a entrevista com autor, que é vice-presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), editor-assistente da COMMUNIO, revista internacional de teologia e cultura, e pesquisador do Russel Kirk Center. Confiram a seguir:

O que é ser um conservador?

Não existe um modelo ideal do que é ser conservador. No livro A Política da Prudência, ao caracterizar o conservadorismo como a negação das ideologias, Russell Kirk ressaltou em diferentes passagens que esta doutrina pode ser expressa de modos distintos. Na perspectiva kirkiana o conservador deve assumir o papel de guardião da ordem, da liberdade e da justiça, lutando pela restauração e pela preservação das normas que informam as verdades acerca da natureza humana e da organização social.

O historiador e filósofo católico mineiro João Camilo de Oliveira, no livro Os Construtores do Império: Ideais e Lutas do Partido Conservador Brasileiro de 1968, primeiro trabalho a citar Russell Kirk no ambiente lusófono, contrapõe o espírito conservador “em seu sentido autêntico”, tal como apresentado pelo pensamento kirkiano e “representado pelo Partido Conservador, no Império do Brasil, e, tradicionalmente, pelo Partido Conservador britânico”, às posturas imobilista, reacionária e progressista. Os imobilistas adotam uma atitude estática, tentando impedir qualquer tipo de mudança, são prisioneiros do presente. Os reacionários estão dispostos a sacrificar o presente e o futuro em nome da restauração de uma visão idílica do passado. Os progressistas ou revolucionários buscam romper com o passado e com o presente na tentativa de criar o utópico “outro mundo possível”. Os verdadeiros conservadores devem reconhecer a imperfectibilidade de seus projetos ao entender que a realidade política e cultural é marcada por uma contínua tensão entre permanências e mudanças.

É possível afirmar que o Brasil vive uma onda conservadora nesse momento de polarizações políticas generalizadas?

Apesar de muitos jovens adotarem o rótulo de conservador, principalmente nas redes sociais, não creio que exista, de fato, uma verdadeira onda conservadora no Brasil. A maioria desses pretensos conservadores são meros reacionários sonhando com o retorno de um passado idealizado ou desejam uma importação artificial de modelos europeus ou norte-americanos, sem uma visão muito clara dos princípios morais, das tradições culturais e das instituições sociais que desejam conservar. Há um perigoso desconhecimento de autores nacionais fundamentais, como Visconde de Cairu, Bernardo Pereira de Vasconcelos, Visconde de Uruguai, José de Alencar, Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, João Camilo de Oliveira Torres, Ubiratan Borges de Macedo, José Osvaldo de Meira Penna, Antonio Paim e tantos outros eminentes conservadores brasileiros.

Outros problemas graves são, por um lado, um caráter ideológico adotado por alguns desses novos “conservadores”, que ignoram ser “a política a arte do possível”, e, por outro lado, uma espécie de idolatria em relação à figura de políticos ou formadores de opinião, muitos deles fundamentados em visões estrangeiras apartadas de nossa realidade, reforçando tanto o culto à personalidade de determinados líderes quanto o fenômeno que Oliveira Vianna denominou “marginalismo das elites”. No entanto, essas imperfeições não anulam os inúmeros aspectos positivos desse movimento, que, em um futuro não muito distante, poderá se tornar, de fato, uma onda conservadora.

Capa

Capa do livro sobre a obra do conservador americano.

Colunas mestras do pensamento kirkiano, Ordem, Justiça e Liberdade são palavras um tanto esquecidas na vida pública e privada no Brasil. Isso explica em parte a “Terra Desolada” na qual nos encontramos?

Volto aqui ao tema do “marginalismo das elites”. A maioria de nossos intelectuais e de nossos políticos estão dissociados da realidade cultural e institucional vivida por parcela significativa da população, adotando ideias progressistas importadas da Europa ou dos Estados Unidos, que se expressaram em uma espécie de “autoritarismo ilustrado”, fundado na tradição cientificista, tal como manifestas ao longo dos últimos séculos no pombalismo, no positivismo, no castilhismo, no tenentismo, no varguismo, no integralismo, no janguismo, no desenvolvimentismo, no brizolismo e no petismo, dentre outros. Tal postura ideológica tende a acreditar que a sociedade pode ser remodelada de cima para baixo por intermédio de um tipo de engenharia social. Essa crença em “iluminados” salvadores da pátria tende a negligenciar as noções orgânicas de “ordem”, de “justiça” e de “liberdade”, fazendo que em nossa “terra desolada” as ideias mais recorrentes sejam as de “igualdade” e de “progresso”.

Defensor de uma educação pluralizada baseada nos valores da imaginação moral, Russell Kirk apontou o “dogma democrático” com um dos principais fatores da queda da qualidade do ensino, tendo e vista a manipulação imputada pelas ideologias, a tecnocracia liberal e a ideia de uma educação como meio de garantir a felicidade individual. Como enfrentar esse problema sabendo que ele é quase uma unanimidade no meio escolar?

Recordo aqui de uma sentença do eminente historiador católico britânico Hugh Trevor-Roper, segundo a qual a “educação universal criou uma massa de analfabetos letrados”. O fenômeno das redes sociais agravou o problema, ao transformar pessoas incapacitadas em formadores de opinião. Mais do que nunca, se tornou uma desoladora verdade a percepção de T. S. Eliot, quando nos “Coros de A Rocha” lançou o seguinte questionamento: “Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? / Onde está o conhecimento que perdemos na informação?”

O chamado “dogma democrático”, tal como defendido, por exemplo, nas teorias pedagógicas de Paulo Freire, se volta contra a tradição cultural de nossa civilização, impedindo que fundado em um patrimônio herdado das gerações passadas os mais jovens possam resistir à manipulação ideológica vigente em um modelo educacional centralizado e burocratizado. No entanto, paradoxalmente, as mesmas redes sociais e demais meios de comunicação que promovem uma espécie de “padronização sem padrões” estão permitindo que tal hegemonia seja, aos poucos quebrada. O mercado editorial é um exemplo disso. O próprio sucesso de vendas de livros de Russell Kirk e de outros autores conservadores ou liberais é a prova de que ainda há esperanças para revertermos o processo de revolução cultural esquerdista em nosso país.

Alex & Annette KirkO historiador ao lado de Annette Kirk, viúva do pensador que marcou o século XX.    

Russell Kirk teceu duras críticas a muitos intelectuais e personagens da vida pública norte-americana, sejam eles ligados aos Partidos Republicano ou Democrata. A seu ver, como ele analisaria a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA?

Em meu livro Russell Kirk: O Peregrino na Terra Desolada e em outros escritos, ressaltei que a coerência com os princípios defendidos sempre foi mais importante que as aparentes necessidades políticas conjunturais, fator que fez o pensador norte-americano criticar o uso de bombas nucleares contra o Japão durante a Segunda Guerra Mundial, censurar a atuação do senador republicano Joseph R. McCarthy e da John Birch Society na perseguição política e na denúncia aos comunistas, defender a liberdade acadêmica irrestrita opondo-se às ideias de William F. Buckley Jr. sobre a temática, notar os defeitos gerados pelo conformismo do chamado “American Way of Life” [modo de vida norte-americano], criticar os excessos dos libertários e dos neoconservadores, desaprovar a doutrina da guerra preventiva e a entrada dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã, assim como avaliar negativamente o apoio quase incondicional da diplomacia norte-americana à Israel e o envolvimento, direto ou indireto, do país nos problemas do Oriente Médio, tal como se deu na guerra entre o Irã e Iraque, de 1980 a 1988, nos conflitos no Líbano, em 1983, e na Primeira Guerra do Golfo, em 1991. No plano da política partidária, Kirk apoiou, em 1976, a candidatura independente de Eugene J. McCarthy, por acreditar que não existiam diferenças de programa político entre o republicano Gerald Ford e o democrata Jimmy Carter. Em 1992, assumiu em Michigan a coordenação da campanha presidencial de Patrick Buchanan nas primárias do Partido Republicano como uma forma de expressar a desaprovação às direções tomadas pela administração de George H. W. Bush na política interna e nas relações externas.

Em resumo, podemos dizer que o grande intelectual conservador soube nadar contra a corrente dominante de muitas posturas associadas ao conservadorismo norte-americano. Creio que a postura de Russell Kirk em relação a Donald Trump seria muito parecida com a de sua viúva, Annette Kirk, que considera o atual presidente uma opção melhor do que Hillary Clinton, mas não é tão otimista quanto uma parcela de nossos conservadores, pois entende que mais importante que a figura individual de um político são a base religiosa, a cultura e as instituições. Não adiante esperar que um salvador da pátria assuma a responsabilidade que cabe individualmente a cada um de nós. Trump representa uma quebra da hegemonia da agenda esquerdista, mas, ao mesmo tempo, não conseguirá implementar de cima para baixo uma restauração que deve ter origem na base da sociedade. A política é o mais transitório dentre os campos de atuação de um conservador, por isso, seguindo os passos de T. S. Eliot e de Christopher Dawson, a importância da cultura foi enfatizada por Russell Kirk.

Para você, há falsos conservadores no campo do pensamento público e também nas redes sociais do Brasil hoje em dia?  São mal preparados, sabem o que dizem?

Existem falsos conservadores, do mesmo modo que existem falsos liberais e falsos socialistas. Mas, não cabe a mim adotar um papel de censor do conservadorismo ou lamentar este fato. Vejo com alegria a existência de tais oportunistas em nossas fileiras, pois mostra a viabilidade das ideias conservadoras. As pessoas que apenas buscam poder, fama ou dinheiro ao adotarem um conservadorismo de fachada são a prova que, cada vez mais, tais ideias estão ganhando um mercado, fazendo, assim, que apareçam aproveitadores tentando lucrar com elas. Não devemos cair em uma visão simplista achando que somente pessoas de reta intenção defenderão uma agenda conservadora. Historicamente, tanto no Reino Unido ou nos Estados Unidos quanto no Brasil tivemos figuras detestáveis compondo os partidos conservadores. A política é a arte do possível. Não será conseguiremos reverter o avanço da agenda esquerdista com um purismo doutrinário. O joio e o trigo sempre estarão em todos os campos, até mesmo entre os conservadores. Em um momento em que a redescoberta de tais ideias é uma novidade, os falsos profetas e os que prometem ser os salvadores da pátria ganham um espaço de maior destaque. Na medida em que as pessoas tomam conhecimento das fontes da doutrina conservadora, entretanto, atingiremos um grau de maior maturidade. Como alertou Winston Churchill, “é possível enganar todos por algum tempo; até mesmo, é possível enganar alguns o tempo todo; mas, não se pode enganar todos o tempo todo”.

Você elenca no livro Russell Kirk: O Peregrino na Terra Desolada uma série de autores do passado que de alguma forma comungam de alguns aspectos do pensamento kirkiano. É possível listar nomes da atualidade que também almejam vencer as tolices do tempo em busca de uma ordem transcendente?

Um dos maiores riscos para um conservador é na defesa da grande tradição do passado não reconhecer os herdeiros desta no presente, se tornando um amargo saudosista que enxerga apenas decadência no mundo ao nosso redor. Temos grandes nomes no presente. Dentre os autores vivos nos Estados Unidos, onde tenho mais contato, cito James V. Schall, S.J., David Walsh, Gertrude Himmelfarb, Robert George, Thomas Sowell, Mary Ann Glendon, Claes Ryn, Ted V. McAllister, Jennifer Roback Morse, Gregory Wolfe, Bradley Birzer e muitos outros, a maioria deles amigos pessoais. No ambiente europeu, lembro de Rémi Brague, Jean-Luc Marion, Jean Duchesne e Jean-Robert Armogathe na França, de Roger Scruton e Theodore Dalrymple no Reino Unido, de Rocco Buttiglione e Dario Anthiseri na Itália e de uma gama de outros intelectuais, cujas obras deveriam ser mais divulgadas em nosso país. No entanto, creio que a maior referência é, sem dúvida, o papa emérito Bento XVI, cujas visões teológicas e culturais devem ser uma referência obrigatória para nossos conservadores.

Antonio-Paim

Antonio Paim: referência no conservadorismo no Brasil.

A perseguição e o desaparecimento do sentimento religioso, fator determinante para o imperativo ético da ideia de Justiça no pensamento kirkiano e de T. S. Eliot, justificam, para ambos os autores, o crescimento da apatia e violência no universo do homem contemporâneo. Para você, avanços tecnológicos e científicos tendem expandir essa problemática ao dar uma sensação de conforto e segurança às pessoas?

A verdadeira ciência aproxima o homem de Deus, o problema se encontra no cientificismo, que, tal como apontado por Eric Voegelin e por Russell Kirk, dentre outros autores, é uma ideologia que simplifica a percepção da realidade. Nossa tradição política esquerdista, como demonstrou Antonio Paim, é herdeira do cientificismo do pombalismo e do positivismo. Não combateremos tais visões ideológicas, muitas delas ateístas e, simultaneamente, adotando o caráter de religião civil, negando a importância da ciência para a mentalidade moderna. O obscurantismo reacionário não é uma alternativa ao cientificismo.

 caso especifico dos avanços tecnológicos, não os devemos superestimar ou subestimar. A raiz e a solução de nossos problemas se encontram no próprio coração do ser humano. Não seremos condenados ou salvos pela tecnologia, pois ela é neutra, podendo ser utilizada tanto para o bem quanto para o mal.

As imagens de uma estória podem oferecer aqui uma visão mais clara sobre a questão. Trata-se da obra O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien, que era um dos trabalhos de ficção contemporânea favoritos de Russell Kirk. Na subcriação tolkieniana há uma relação necessária entre preservação da tradição, aceitação das mudanças inerentes à dinâmica histórica, defesa da liberdade individual contra o arbítrio do poder, exaltação da criatividade, e luta contra a massificação que destrói a singularidade individual de cada criatura. Diante de todas essas características os escritos de Tolkien podem ser vistos como negação tanto da postura reacionária contrária a qualquer mudança, tal como assumida por Denethor, quanto da atitude revolucionário, expressa no projeto progressista de Saruman.

Kirk anunciou em sua obra o fim da chamada “Era dos Debates” por conta do advento do rádio, meio de comunicação que foi um divisor de águas naquele período. Em tempos de fragmentação do pensamento e dos meios de apreensão da realidade, o crescimento da Internet trouxe de volta ou não o valor do debate público?

A noção kirkiana de “Era dos Debates” se refere muito mais aos valores de racionalidade iluminista, que foram, em parte, suplantados em nossa “Era dos Sentimentos” pela visão romântica de Jean-Jacques Rousseau e de seus discípulos. A noção de razão instrumental se mostrou limitada. A tarefa de um conservador em nossos dias não é apenas de convencer racionalmente a superioridade de nossas ideias, além de comunicar as mentes, temos que tocar os corações. Nesse sentido as redes sociais se tornam uma nova ágora na qual os defensores das “coisas permanentes” poderão utilizar a “imaginação moral” para divulgar os princípios conservadores.

Não devemos perder a esperança. Onde muitos enxergam dificuldades, vejo oportunidades. Há um imenso trabalho de resgate cultural a ser feito. Nessa cruzada se faz necessário nos voltarmos para o estudo de importantes autores estrangeiros como Russell Kirk, mas, ao mesmo tempo, sem negligenciarmos o patrimônio conservador brasileiro, em especial, a tradição apresentada nos livros de João Camilo de Oliveira Torres e de Antonio Paim.

A Politica da Prudencia

O Russell Kirk Center for Cultural Renewal prepara algum evento para comemorar o centenário de nascimento do autor em 2018? Haverá algum evento ou lançamento editorial no Brasil para marcar a data?

O centenário de nascimento de Russell Kirk será celebrado nos Estados Unidos não apenas por eventos promovidos pelo Russell Kirk Center for Cultural Renewal, mas, também, por outras instituições como a Philadelphia Society, o Intercollegiate Studies Institute e a Heritage Foundation. No Brasil, está previsto para comemorar a data no ano de 2018, o lançamento pela É Realizações Editora da edição em português do livro The Conservative Mind [A Mentalidade Conservadora], bem como um evento com a participação de familiares e de especialistas no pensamento kirkiano. Estou envolvido em outros projetos relacionados a este centenário, mas, no momento não posso revelar mais detalhes.

Anúncios

Sobre marcobissoli

Jornalista, profesor de Literatura e blogueiro
Esse post foi publicado em Sem categoria. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para O FRESCOR DA TRADIÇÃO

  1. Catarina Linhares disse:

    Achei que a entrevista ficou ótima. Perguntas inteligentes do entrevistador, que deram espaço para respostas esclarecedoras. Parabéns aos dois!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s